“Achando que sofrer é amar demais” - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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“Achando que sofrer é amar demais”

“Achando que sofrer é amar demais”

Robin Norwood

De canções populares a óperas, literatura clássica a romances de Harlequin, novelas a peças e filmes aclamados pela crítica, estamos cercados de inúmeros exemplos de relacionamentos insatisfatórios e imaturos que são glorificados e glamourizados. Esses modelos culturais nos dizem repetidamente que a profundidade do amor pode ser medida pelo sofrimento que causa, e que quem realmente sofre ama de verdade. Quando um cantor lamenta em sua canção não conseguir parar de amar alguém embora isso doa muito, há, talvez devido à pura força da exposição repetida desse ponto de vista, algo em nós que aceita que aquilo que o cantor expressa é o modo como deveria ser. Aceitamos que o sofrimento é uma parte natural do amor, e que a disposição de sofrer por amor é uma característica positiva, em vez de negativa.

Existem muito poucos modelos de pessoas se relacionando como iguais, de modos saudáveis, maduros, honestos, sem exploração e manipulação, provavelmente por dois motivos: o primeiro é que, com toda a honestidade, na vida real esses relacionamentos são bastante raros. O segundo é que, como a qualidade da interação emocional nos relacionamento saudáveis frequentemente é muito mais sutil do que o drama evidente nos relacionamentos doentios, seu potencial dramático em geral é desconsiderado na literatura, no teatro e nas canções. Se modos de se relacionar doentios nos infestam, talvez seja porque isso é quase tudo que vemos e conhecemos.

Devido à escassez de exemplos de amor maduro e comunicação saudável na mídia, há anos tenho a fantasia de escrever o roteiro de um capítulo de todas as grandes novelas. Em meu episódio, todos os personagens se comunicariam uns com os outros de modos honestos, não defensivos e atenciosos. Sem mentiras, segredos, manipulações, ninguém disposto a se tornar vítima de outra pessoa e ninguém vitimando. Em vez disso, por um dia os espectadores veriam pessoas empenhadas em ter relacionamentos saudáveis baseados na genuína comunicação.

Esse modo de se relacionar não só conflitaria muito com o formato normal desses programas como também ilustra, por meio de extremo contraste, o quanto estamos saturados de descrições de exploração, manipulação, sarcasmo, vingança, sedução deliberada, provocação de ciúme, mentira, ameaça, coação e assim por diante – nada do que contribui para uma interação saudável. Quando você pensar no que um capítulo retratando comunicação honesta e amor maduro faria pela qualidade dessas sagas, considere também o que a mesma alteração no estilo de comunicação faria na vida de cada um de nós.

Tudo acontece em um contexto, inclusive nosso modo de amar. Precisamos estar conscientes das falhas prejudiciais que existem na visão do amor por parte da nossa sociedade e resistir à imaturidade superficial e autodestrutiva nos relacionamentos pessoais que ela glamouriza. Precisamos desenvolver conscientemente um modo de nos relacionarmos de forma mais aberta e madura do que nossa mídia cultural parece endossar, dessa forma trocaremos tumulto e excitação por intimidade mais profunda.