Como um raio: musicofilia súbita - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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Como um raio: musicofilia súbita

Como um raio: musicofilia súbita

Oliver Sacks

Tony Cicoria tinha 42 anos, era forte e estava em ótima forma. Jogara futebol americano na universidade e se tornara cirurgião ortopédico em uma pequena cidade no norte do estado de Nova York. Numa agradável tarde de outono, foi a uma reunião de família, num pavilhão à beira de um lago. Soprava uma brisa, mas ele notou algumas nuvens de tempestade ao longe. Viria chuva, pensou.

Foi até o telefone público próximo do pavilhão fazer uma rápida ligação para sua mãe (era 1994, antes da voga dos celulares). Tony ainda se recorda de cada segundo do que lhe aconteceu em seguida: “Eu estava conversando com minha mãe ao telefone. Chuviscava, ouviam-se trovões ao longe. Minha mãe desligou. O telefone estava a uns trinta centímetros de onde eu me encontrava quando fui atingido. Lembro de um clarão de luz sair do aparelho. Pegou-me no rosto. Minha lembrança seguinte é de estar voando para trás”.

Então – ele pareceu hesitar antes de me contar isso – “eu estava voando para a frente. Atordoado. Olhei em volta. Vi meu corpo no chão. Caramba, estou morto, pensei. Vi pessoas convergindo para o corpo. Vi uma mulher – que tinha estado logo atrás de mim, esperando para usar o telefone – debruçar-se sobre o meu corpo e fazer a reanimação cardiorrespiratória. […] Flutuei para as estrelas. Minha consciência veio comigo; vi meus filhos, tive a percepção de que eles ficariam bem. E então fui envolvido por uma luz branco-azulada… uma sensação intensa de bem-estar e paz. Os melhores e os piores momentos da minha vida passaram velozmente por mim. Nenhuma emoção estava associada a eles… puro pensamento, puro êxtase. Tive a percepção de acelerar, de ser puxado para cima… com velocidade e direção. E justo quando eu dizia a mim mesmo ‘esta é a sensação mais deliciosa que já tive’ – BAM! Eu voltei”.

O dr. Cicoria sabia que estava de volta ao seu corpo porque sentia dor – a dor das queimaduras no rosto e no pé esquerdo, por onde a carga elétrica entrara e saíra de seu corpo. E “só um corpo pode sentir dor”, deduziu. Ele quis voltar, quis dizer àquela mulher que parasse com a reanimação, que o deixasse ir. Mas era tarde demais. Estava firmemente de volta entre os vivos. Depois de um ou dois minutos, quando conseguiu falar, disse: “Está tudo bem. Eu sou médico”. “Pois instantes atrás, não era”, replicou a mulher (por coincidência, uma enfermeira de UTI).

A polícia chegou. Quiseram chamar uma ambulância, mas Cicoria, delirante, recusou. Levaram-no então para casa (“parece ter demorado horas”), e de lá ele telefonou para seu médico, um cardiologista. Este fez o exame e achou que Cicoria provavelmente sofrera uma breve parada cardíaca, mas nada encontrou de errado no aspecto clínico e no eletrocardiograma. “Desse tipo de coisa, a gente sai vivo ou morto”, comentou o cardiologista. E julgou que dr. Cicoria não sofreria mais nenhum consequência do acidente bizarro.

Cicoria consultou também um neurologista. Sentia-se lerdo, coisa raríssima nele, e sua memória não estava boa. Ele andava esquecendo o nome de pessoas que conhecia muito bem. Fez um exame neurológico, um eletroencefalograma e uma ressonância magnética. Novamente, tudo pareceu normal.

Duas semanas depois, quando sua energia retornou, o dr. Cicoria voltou a trabalhar. Persistiam ainda alguns problemas de memória. Ele às vezes esquecia o nome de doenças raras ou de procedimentos cirúrgicos, mas todas as suas habilidades de cirurgião estavam intactas. Decorridas mais duas semanas, seus problemas de memória desapareceram, e a questão estava encerrada, pensou.

O que aconteceu em seguida até hoje deixa pasmo o dr. Cicoria, muito embora já tenham se passado doze anos. Sua vida parecia ter voltado ao normal. “Mas de repente”, ele contou, “passei a sentir, por dois ou três dias, um desejo insaciável de ouvir música de piano”. Isso não condizia com nada de seu passado. Ele comentou que tivera algumas aulas de piano quando menino, mas sem se “interessar de verdade”. Em sua casa não havia piano. Quando ele ouvia música, em geral era rock.

Com essa repentina ânsia por música de piano, começou a comprar discos. Apaixonou-se especialmente por uma coletânea de Chopin gravada por Vladimir Ashkenazi: a Polonesa em lá bemol, o Scherzo em si bemol maior. “Adorei todos eles”. disse Tony, “e desejei tocá-los. Encomendei as partituras. Naquele período, a babá dos nossos filhos perguntou se poderíamos guardar seu piano em nossa casa. Veja só, justo quando eu mais suspirava por um piano, apareceu-me um! Era um piano de armário pequeno e jeitoso. Servia-me muito bem. Eu praticamente não sabia ler música, mal sabia tocar, mas comecei a aprender sozinho”. Fazia mais de trinta anos que ele, menino ainda, tivera suas aulas de piano, e agora seus dedos estavam rígidos e inábeis.

Logo em seguida o súbito desejo por música de piano, Cicoria começou a ouvir música na cabeça. “A primeira vez, foi num sonho”, ele contou. “Eu estava de smoking, no palco, tocando alguma coisa de minha autoria. Acordei sobressaltado, com a música ainda na cabeça. Pulei da cama, comecei a tentar anotar tudo que conseguia lembrar. Mas eu não sabia escrever o que tinha ouvido.” Foi um fiasco. Nunca ele tentara compor ou anotar uma música. Mas toda vez que se sentava ao piano para tocar Chopin, lá vinha a música do sonho. “Ela chegava e se apoderava de mim. Tinha uma presença imperiosa.”

Eu não soube como classificar exatamente aquela música peremptória, que se intrometia quase irresistivelmente e se apossava dele. Será que ele estava tendo alucinações musicais? Não, disse o dr. Cicoria, não eram alucinações. “Inspiração” seria um termo mais apropriado. A música estava lá, bem dentro dele, ou em algum lugar, e bastava que ele a deixasse vir. “É como uma frequência, uma faixa radiofônica. Se eu me abrir, ela vem. Quisera dizer que ‘ela vem do céu’, como Mozart disse.”

Sua música é incessante. “Ela nunca se esgota”, ele prosseguiu. “No máximo, eu consigo desligá-la.”

Agora ele tinha de batalhar para aprender não só a tocar Chopin, mas também a dar forma àquela música que tocava continuamente em sua cabeça, tentar reproduzi-la ao piano, registrá-la no papel. “Era uma luta terrível”, disse. “Eu me levantava às quatro da madrugada e tocava até sair pra trabalhar, e quando voltava para casa ficava no piano até a hora de ir dormir. Minha mulher não estava gostando nada. Eu estava possuído.”

No terceiro mês depois de ter sido atingido pelo raio, Cicoria, antes um sujeito tranquilo, jovial, apegado à família e quase indiferente a música, estava inspirado, até mesmo possuído pela música, e mal tinha tempo para outra coisa. Começou a ocorrer-lhe que talvez ele houvesse sido “salvo” por uma razão especial. “Acabei achando”, comentou, “que a única razão de eu ter tido permissão para sobreviver era a música.” Perguntei se ele fora um homem religioso antes do raio. Ele respondeu que havia sido criado como católico, mas nunca fora praticante. Tinha também algumas crenças “não ortodoxas”, como a reencarnação.

Acabou acreditando que ele próprio tivera uma espécie de reencarnação, que fora transformado, recebera um dom especial, uma missão: “sintonizar-se” com a música que ele chamava, não de todo metaforicamente, de “música do céu.” Ela lhe chegava, em geral, em “uma torrente absoluta” de notas sem interrupções, sem descanso entre si, e ele precisava dar-lhe forma, defini-la. Ao ouvir esse comentário, pensei em Caedmon, poeta anglo-saxão do século VII, um pastor analfabeto que certa noite, diziam, recebera a “arte da canção” em um sonho e passara o resto da vida a entoar hinos e poemas em louvor a Deus e à criação.

Cicoria continuou a dedicar-se ao aprendizado de piano e às suas composições. Adquiriu livros sobre notação musical e logo percebeu que precisava de um professor de música. Viajava para assistir a concertos de seus intérpretes favoritos, mas em sua cidade não tinha amigos nem atividades nos círculos musicais. Aquela era uma busca solitária, só ele e sua musa.

Perguntei se percebera outras mudanças desde que o raio o atingira – algum novo gosto artístico, novas preferências literárias, novas crenças? Cicoria disse que se tornara “muito espiritualizado” desde sua experiência de quase-morte. Passara a ler tudo que encontrava sobre o assunto ou sobre queda de raios. Tinha “uma verdadeira biblioteca sobre Tesla”* e sobre tudo que se referisse ao terrível e belo poder da eletricidade de alta voltagem. Ele achava que às vezes podia ver “auras” de luz ou eletricidade em torno do corpo das pessoas. Nunca vira tal coisa antes de o raio atingi-lo.

Passaram-se alguns anos, e a nova vida de Cicoria, sua nova inspiração, não o abandonou nem por um momento. Ele continuava a trabalhar em período integral como cirurgião, mas seu coração e sua mente agora estavam na música. Divorciou-se em 2004, e nesse mesmo ano sofreu um grave acidente de motocicleta. Ele não se recorda, mas sua Harley foi atingida por outro veículo, e ele foi encontrado numa vala, inconsciente e com ferimentos graves, ossos fraturados, ruptura no braço, pulmão perfurado, contusões cardíacas e, mesmo com o capacete, ferimentos na cabeça. Apesar de tudo isso ele se recuperou totalmente e voltou a trabalhar em dois meses. Nem o acidente, nem o traumatismo na cabeça e nem o divórcio pareceram abalar sua paixão por tocar e compor música.

Nunca encontrei outra pessoa com uma história semelhante à de Tony Cicoria, mas alguns dos meus pacientes também relatam um início súbito de interesses musicais e artísticos. Uma delas é Salimah M., pesquisadora química. Aos quarenta e poucos anos, ela começou a vivenciar breves períodos, de um minuto ou menos, durante os quais tinha “uma sensação estranha”, às vezes de estar numa praia que já conhecera, ao mesmo tempo em que se mantinha perfeitamente consciente do que se passava ao seu redor naquele momento, sendo capaz de continuar uma conversa, dirigir um carro ou fazer qualquer outra coisa na qual estivesse ocupada. Ocasionalmente esses episódios vinham acompanhados por um “gosto azedo na boca”. Ela notou essas estranhas ocorrências, mas não imaginou que tivessem alguma importância neurológica. Só quando sofreu um ataque de epilepsia de grande mal no verão de 2003 ela procurou um neurologista e se submeteu a exames de neuroimagem, que revelaram um grande tumor em seu lobo temporal direito. Essa fora a causa de seus estranhos episódios, os quais, soube-se então, decorriam de epilepsia do lobo temporal. Os médicos achavam que o tumor era maligno (embora provavelmente fosse um oligodendroglioma, de malignidade relativamente baixa) e precisaria se removido. Salimah receou que aquela pudesse ser sua sentença de morte, e temeu a operação e suas possíveis consequências. Disseram a ela e ao marido que talvez ocorressem algumas “mudanças de personalidade” depois da cirurgia. Mas no final ocorreu tudo bem na operação, o tumor foi removido e após um período de convalescença ela pôde voltar a trabalhar como química.

Ela fora uma mulher muito reservada antes da cirurgia, às vezes se aborrecia ou se preocupava com as coisas secundárias, como poeira ou objetos fora do lugar. Seu marido disse que ela às vezes ficava “obcecada” com as tarefas domésticas. Mas agora, depois da cirurgia, Salimah parecia não se incomodar com esses assuntos. Tornara-se, nas idiossincráticas palavras de seu marido, que era estrangeiro, “uma gata feliz”. Tinha virado uma “festeiro-logista”, ele declarou.

A nova animação de Salimah foi notada no laboratório. Fazia quinze anos que ela trabalhava ali, e sempre fora admirada por sua inteligência e dedicação. Mas agora, sem ter perdido nada de sua competência profissional, parecia uma pessoa muito mais afável, extremamente solidária, interessada na vida e nos sentimentos dos colegas. Ela que, segundo um funcionário do laboratório, fora “bem mais fechada”, agora se transformara em confidente e eixo social de toda a equipe.

Também em casa ela descartou um pouco do seu “lado Marie Curie”, da personalidade centrada no trabalho. Agora se concedia um tempo longe de suas equações, do raciocínio puro e simples, e se interessava mais por cinema e festas, por um pouco de diversão. Além disso, um novo amor, uma nova paixão entrou em sua vida. Salimah fora, em suas palavras, uma menina “vagamente musical”, que às vezes tocava piano, mas a música nunca tivera um papel muito importante em sua vida. Agora era diferente. Ela ansiava por música, queria ir a concertos, ouvir música clássica no rádio ou em CD. Músicas que antes não lhe traziam “nenhum sentimento especial” agora podiam deixá-la em êxtase ou em lágrimas. Tornou-se “viciada” em ouvir música no rádio do carro a caminho do trabalho. Um colega que passou por ela na estrada disse que a música que ela escutava no rádio estava “incrivelmente alta” – ele podia ouvi-la a quatrocentos metros de distância. Em seu conversível, Salimah estava “entretendo toda a rodovia.”

Assim como Tony Cicoria, Salimah manifestou uma drástica transformação: seu interesse por música, antes apenas vago, tornou-se arrebatador, e a música passou a ser para ela uma necessidade contínua. E em ambos ocorreram também outras mudanças, mais gerais: um afloramento súbito da emotividade, como se emoções de todo tipo estivessem sendo estimuladas ou liberadas. Nas palavras de Salimah: “O que aconteceu depois da cirurgia… eu me senti renascer. Isso mudou meu modo de encarar a vida, e me levou a apreciar cada minuto”.

Seria possível alguém adquirir musicofilia “pura”, sem nenhuma mudança concomitante de personalidade ou comportamento? Em 2006 Rohrer, Smith e Warren descreveram uma situação como essa em um surpreendente relato do caso de uma sexagenária que sofria de intratável epilepsia do lobo temporal com foco no lado direito. Após sete anos de convulsões, estas foram finalmente controladas com lamotrigina (LTG), uma droga anticonvulsiva. Antes de começar a medicação, escreveram os pesquisadores, essa paciente

sempre fora indiferente a música, nunca ouvia música por prazer, nem ia a concertos. Seu marido e sua filha, em compensação, tocavam piano e violino […]. Ela era insensível à música tailandesa tradicional que ouvira em família ou em eventos públicos em Bangkok, e também à música clássica e aos gêneros populares de música ocidental que encontrou depois de mudar-se para o Reino Unido. Ela inclusive continuou a evitar música sempre que possível, e detestava certos timbres musicais (por exemplo, fechava a porta para não ouvir seu marido tocar piano, e achava “irritante” o canto coral).

Essa indiferença à música mudou abruptamente quando a paciente começou a ser tratada com lamotrigina:

Passada várias semanas após a primeira dose de LTG, observou-se uma mudança fundamental em sua apreciação da música. Ela procurava programas musicais no rádio e televisão, ouvia estações de música clássica durante muitas horas por dia e exigia ir a concertos. Seu marido descreveu que ela permaneceu “extática, arrebatada” durante toda a apresentação de La traviata, e que se aborrecia quando alguém na platéia conversava durante a execução. Agora ela declarava que ouvir música clássica era uma experiência extremamente agradável e emocionante. Ela não cantava nem assoviava, e nenhuma outra mudança foi observada em seu comportamento ou personalidade. Não foram encontrados indícios de distúrbios de pensamento, alucinações ou perturbações de humor.

Embora Rohrer et al. não conseguissem identificar com precisão a base da musicofilia de sua paciente, arriscaram supor que, durante os anos em que ela sofrera incorrigível atividade convulsiva, talvez houvesse surgido uma conexão funcional intensificada entre sistemas perceptuais nos lobos temporais e partes do sistema límbico envolvidas na resposta emocional (uma relação que só se evidenciou quando as convulsões foram postas sob controle com medicação). Na década de 1970, David Bear aventou que essa hiperconexão sensório-límbica talvez fosse a base para o surgimento dos inesperados sentimentos artísticos, sexuais, místicos ou religiosos que ocorrem em algumas pessoas com epilepsia do lobo temporal. Algo semelhante poderia ter acontecido com Tony Cocoria?

Na primavera passada, Cicoria participou de um retiro musical que reuniu por dez dias estudantes de música, amadores talentosos e jovens profissionais. O acampamento também servia de showroom para Erica vanderLinde Feidner, pianista e concertista que, além disso, é especialista em encontrar o piano perfeito para cada um de seus clientes. Tony acabara de comprar de Erica um piano de cauda Bösendorfer, um protótipo único feito em Viena. Ela achou que Cicoria possuía um impressionante instinto para escolher um piano do tom exato que ele desejava. Aquele seria um bom momento e um bom lugar para fazer sua estréia como músico, pensou Cicoria.

Ele treinou duas músicas para seu concerto: Scherzo em si bemol menor, de Chopin, seu primeiro amor, e Rapsódia, Opus 1, a primeira música que ele próprio havia composto. Sua apresentação e sua história eletrizaram todos os que estavam no retiro (muitos fizeram votos de também ser atingidos por um raio). Cicoria tocou com “grande paixão, grande vivacidade”, disse Erica. E mostrou, ainda que não uma genialidade sobrenatural, ao menos uma habilidade louvável – uma façanha assombrosa para alguém praticamente desprovido de formação musical que aprendera a tocar como autodidata aos 42 anos de idade.

O dr. Cicoria perguntou-me o que, depois de tudo, eu achava de sua história. Já encontrara algum caso parecido? E eu, por minha vez, perguntei o que ele achava e como interpretava o que lhe acontecera. Como médico, respondeu, ele era incapaz de explicar aqueles eventos, e agora tinha de pensar neles pelo lado “espiritual”. Argumentei que, sem desrespeito pelo espiritual, eu achava que até mesmo os mais exaltados estados mentais, as mais espantosas transformações possuíam sem dúvida alguma base física, ou no mínimo algum correlato fisiológico na atividade neural.

No momento em que o raio o atingiu, o dr. Cicoria teve uma experiência de quase-morte e uma experiência extracorpórea. Muitas explicações sobrenaturais ou místicas já foram dadas para as experiências extracorpóreas, mas há um século ou mais esse fenômeno também vem sendo alvo de estudos neurológicos. Tais experiências parecem ocorrer em um formato relativamente estereotipado: a pessoa parece não estar mais em seu corpo, e sim fora dele. Mais comumente, está vendo a si mesma de cima, de uma altura de quase três metros (os neurologistas chamam isso de “autoscopia“). Parece ver claramente o aposento ou o espaço à sua volta e as outras pessoas e objetos próximos, só que de uma perspectiva aérea. Muitos indivíduos que tiveram experiências desse tipo descrevem sensações como “flutuar” nos ares ou “voar”. As experiências extracorpóreas podem inspirar medo, prazer ou um sentimento de separação, mas em geral são descritas como intensamente “reais” – nada parecido com sonhos ou alucinações. Foram relatadas nos contextos de muitos tipos de experiências de quase-morte, assim como em casos de convulsões do lobo temporal. Há alguns indícios de que os aspectos tanto visuoespaciais como vestibulares das experiências extracorpóreas estão relacionados à pertubação da função do córtex cerebral, especialmente na região de ligamento entre os lobos temporais e parietais.¹

Mas não foi só uma experiência extracorpórea que dr. Cicoria relatou. Ele viu uma luz branco-azulada, viu seus filhos, reviu sua vida num átimo, teve uma sensação de êxtase e, sobretudo, de algo transcendental e imensamente significativo. Qual poderia ser a base neural disso tudo? Experiências semelhantes de quase-morte foram descritas por muitas pessoas que estiveram, ou julgaram estar, em grande perigo, quando sofreram acidentes, foram atingidas por um raio ou, mais comumente, ao serem reanimadas após uma parada cardíaca. Todas essas situações não são apenas aterrorizantes, mas tendem a causar súbita queda da pressão arterial e do fluxo de sangue no cérebro (e, quando ocorre parada cardíaca, privação de oxigênio no cérebro). Provavelmente em tais estados ocorrem uma intensa excitação emocional e um súbito pico de noradrenalina e outros neurotransmissores, quer o sentimento seja de terror, quer de êxtase. Até o presente temos pouquíssima noção sobre os verdadeiros correlatos neurais dessas experiências, mas as alterações de consciência e emoção que ocorrem são muito profundas e decerto envolvem, além do córtex, as partes emocionais do cérebro – amígdala e núcleos do tronco cerebral.²

Embora as experiências extracorpóreas tenham o caráter de uma ilusão perceptual (ainda que complexa e singular), as experiências de quase-morte têm, todas, as marcas registradas da experiência mística, como William James as define: passividade, inefabilidade, transitoriedade e uma qualidade noética. A pessoa é totalmente consumida por uma experiência de quase-morte, é arrebatada, quase literalmente, por um clarão de luz (ou, às vezes, um túnel ou funil), e arrastada em direção a um Além – além da vida, além do espaço e do tempo. Há uma sensação de última olhada, de uma despedida (muito acelerada) das coisas terrenas, dos lugares, pessoas e eventos da vida, e um sentimento de êxtase ou alegria ao voar para seu destino – um simbolismo arquetípico da morte e da transfiguração. Experiências como essa não são facilmente menosprezadas por quem as vivenciou, e podem, às vezes, levar a uma conversão ou metanóia, uma mudança de mentalidade que altera o rumo e a orientação da vida. Não se pode supor, nem nesses casos nem naqueles de experiências extracorpóreas, que tais eventos sejam pura fantasia, pois características muito semelhantes são ressaltadas em todos os relatos. As experiências de quase-morte devem ter uma base neurológica específica, que altera profundamente a própria consciência.

E quanto ao notável acesso de musicalidade do dr. Cicoria, sua súbita musicofilia? Em alguns pacientes com degeneração das partes frontais do cérebro, a chamada demência frontotemporal, ocorre um surpreendente aparecimento ou liberação de talentos e paixões musicais à medida que tais pessoas vão perdendo a capacidade de abstração e de linguagem. Esse, no entanto, claramente não era o caso do dr Cicoria, que em todos os aspectos era um homem bem-falante e muito competente. Em 1984 Daniel Jacome descreveu um paciente que sofrera um derrame, com lesão no hemisfério esquerdo do cérebro, e consequentemente adquirira “hipermusia”, além de afasia e outros problemas. Mas não havia nenhum indício de que Tony Cicoria houvesse sofrido um derrame ou alguma lesão cerebral significativa; apenas um distúrbio muito transitório de seus sistemas de memória por uma ou duas semanas após ser atingido pelo raio.

Sua situação lembrava-me um pouco o caso de Franco Magnani, o “artista da memória” que descrevi em um de meus livros.³ Franco nunca pensara em ser pintor antes de sofrer uma estranha crise ou doença – talvez uma forma de epilepsia do lobo temporal – quando, aos 31 anos, passou a sonhar todas as noites com Pontito, o pequeno vilarejo toscano onde nascera. Depois que ele acordava, aquelas imagens permaneciam intensamente vívidas, perfeitas em profundidade e realidade (“como hologramas”). Franco foi arrebatado pela necessidade de tornar reais aquelas imagens, pintá-las, e por isso aprendeu sozinho a pintar e dedicava cada minuto de seu tempo livre a produzir centenas de cenas de Pontito.

O raio que atingiu o dr. Cicoria poderia ter desencadeado tendências epilépticas em seus lobos temporais? Há muitos relatos sobre o inícios de inclinações musicais ou artísticas em convulsões do lobo temporal, e os que sofrem esses ataques também podem adquirir intensos sentimentos místicos ou religiosos, como ocorreu com Cicoria. No entanto, ele não descrevera nada parecido com convulsões epilépticas, e aparentemente o eletroencefalograma feito logo após o acontecimento resultara normal.

Por que então a musicofilia demorou tanto a se manifestar no caso de Cicoria? O que estava acontecendo nas seis ou sete semanas que se passaram entre sua parada cardíaca e a erupção muito repentina da musicalidade? Sabemos que houve efeitos imediatos da queda do raio: a experiência extracorpórea, a experiência de quase-morte, os estados de confusão que durou algumas horas e o distúrbio de memória que permaneceu por duas semanas. Esses efeitos podem ter ocorrido apenas da anoxia cerebral, pois seu cérebro sem dúvida ficou sem oxigênio por um minuto ou mais. Mas também é possível que o próprio raio tenha afetado diretamente o cérebro. Entretanto, é impossível não suspeitar que a aparente recuperação do dr. Cicoria duas semanas depois do evento não tenha sido completa como se pensou. Talvez tenham ocorrido outras formas de dano cerebral que passaram despercebidas, e seu cérebro ainda estivesse reagindo ao trauma original e se reorganizando durante esse período.

O dr. Cicoria julga-se “uma pessoa diferente” agora – em sua vida musical, emocional, psicológica e espiritual. Essa foi também minha impressão ao ouvir sua história e ver algumas da novas paixões que o transformaram. Analisando-o de uma perspectiva neurológica, acho que seu cérebro agora deve ser muito diferente do que era antes de o raio atingi-lo ou em comparação com o que foi nos dias imediatamente seguintes ao incidente, quando os exames neurológicos não detectaram nenhum grande problema. Presumivelmente estavam ocorrendo mudanças nas semanas subsequentes, quando seu cérebro estava se reorganizando – preparando-se, digamos, para a musicofilia. Poderíamos hoje, doze anos depois, definir essas mudanças, definir a base neurológica de sua musicofilia? Vários exames novos e muito mais refinados da função cerebral foram desenvolvidos desde que Cicoria sofreu o trauma em 1994, e ele concordou que seria interessante investigar mais a fundo a questão. Mas depois reconsiderou e disse que talvez fosse melhor deixar tudo como estava. Ele tivera sorte, e a música, não importava como lhe houvesse chegado, era uma benção, uma graça – que não devíamos questionar.**

*Físico e inventor servo-americano que desenvolveu a técnica para uso da corrente alternada no fornecimento de energia elétrica. (N.T.)

¹Orrin Devinsku et al. descreveram “fenômenos autoscópicos com convulsões” em dez de seus pacientes e analisaram casos semelhantes descritos anteriormente na literatura médica, enquanto Olaf Blanke e seus colegas na Suíça puderam monitorar a atividade cerebral de pacientes epiléticos que realmente passaram por experiências extracorpóreas.

²Kevin Nelson e seus colegas na Universidade de Kentucky publicaram vários textos de neurologia destacando as semelhanças entre as sensações de dissociação, euforia e sentimentos místicos das experiências de quase-morte e as vivenciadas nos estados de sonho, sono REM e alucinações no limiar do sono.

³A história de Franco foi publicada no capítulo “A paisagem de seus sonhos” de Um antropólogo em Marte.

Fonte: Texto de Oliver Sacks publicado em: Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. Trad. Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, 2007. p. 17-29