Depressão, o segredo que compartilhamos - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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Depressão, o segredo que compartilhamos

Depressão, o segredo que compartilhamos

Andrew Solomon

Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar – a pisar – até eu sonhar
Meus sentidos fugindo –
E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício –
Bateu – bateu – até eu sentir
Inerte o meu juízo
E eu as ouvi – erguida a Tampa –
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço dobrou
Como se os Céus fossem um sino
E o Ser apenas um Ouvido
E eu e o silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui –
Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão –
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo – então –

(Emily Dickinson. Tradução: Augusto de Campos)

Conhecemos a depressão por metáforas. Emily Dickinson a convertia em linguagem, Goya, em imagem. Metade do propósito da arte, é descrever esses estados icônicos.

No meu caso, sempre pensei ser forte, que sobreviveria, se fosse para um campo de concentração.

Em 1991, passei por uma série de perdas. Minha mãe morreu, vivi o fim de um relacionamento, retornei aos Estados Unidos, após anos morando no exterior, e passei por tudo isso intacto.

Mas, em 1994, três anos depois, perdi o interesse por quase tudo. Não queria fazer nada do que fazia antes, e não sabia o porquê. O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade, e a vitalidade parecia fugir de mim naquele momento. Tudo que eu fazia parecia ser trabalhoso demais. Eu chegava em casa, via a luz da secretária eletrônica piscando, e não me animava a saber dos amigos. Eu pensava: “Quanta gente para ligar de volta.” Ou decidia almoçar, e aí pensava em ter que pegar a comida, colocá-la no prato, cortá-la, mastigá-la e engoli-la. E me sentia em uma Via Crucis.

Algo que sempre se esquece em discussões sobre depressão, é que sabemos que isso é ridículo. Sabemos disso, quando a vivenciamos. Sabemos que a maioria consegue ouvir as mensagens, almoçar, tomar banho, sair de casa, e que não é nada demais. Ainda assim, você fica inerte e incapaz de pensar em uma saída. Assim, comecei a sentir que agia menos, pensava menos, e sentia menos. Era uma espécie de anulação.

E assim, veio a ansiedade. Se me dissessem que eu ficaria deprimido este mês, diria: “Desde que termine mês que vem, tudo bem.” Mas, se me dissessem: “Você terá ansiedade aguda por um mês,” eu preferiria cortar os pulsos. Era o sentimento constante, como o de estar andando, escorregar ou tropeçar, e o chão vir a seu encontro, mas em vez de um durar um segundo, ele durou 6 meses. É uma sensação de medo permanente, mas sem saber do que se tem medo. E foi aí que comecei a pensar que era muito sofrido viver, e a única razão de não me matar, era a de não fazer os outros sofrerem.

Finalmente, um dia, eu acordei e pensei que tivera um AVC, porque estava deitado na cama, paralisado, olhando o telefone, pensando: “Algo está errado e preciso pedir socorro”, e não conseguia mover o braço e alcançar o telefone para ligar. Após quatro longas horas, imóvel, fixando o telefone, ele tocou, e consegui atendê-lo. Era meu pai, e falei: “Estou com um problema sério. Precisamos fazer algo.”

Um dia depois, comecei com os medicamentos e a terapia. Comecei a me confrontar com a terrível pergunta: “Se não sou forte como pensara, que sobreviveria a um campo de concentração, então, quem sou eu? E se tenho que tomar medicamento, ele fará com que eu seja eu mesmo, ou outra pessoa? Como me sentirei se ele me tornar outra pessoa?”

Ao entrar nessa luta, eu tinha duas vantagens. A de que sabia, objetivamente, que minha vida era agradável, e se ficasse bem, haveria algo do outro lado pelo qual valeria a pena viver. A outra, era a de ter acesso a um bom tratamento.

Apesar disso, eu melhorava e recaía, melhorava e recaía, melhorava e recaía, e finalmente entendi que tomaria medicamentos e faria terapia para sempre. Pensei: “É um problema químico ou psicológico? Precisa de cura química ou filosófica?” E não entendia qual seria. Percebi que, na verdade, não avançamos muito nessas áreas para sabermos com precisão. Tanto a cura química como a psicológica têm seu papel. Também pensei que a depressão era algo que estava entranhado tão fundo em nós que não havia uma separação entre caráter e personalidade.

Os tratamentos que temos para depressão são lamentáveis. Não são muito eficazes, são extremamente caros, provocam inúmeros efeitos colaterais. São um desastre. Mas sou grato por viver hoje, e não 50 anos atrás, quando quase nada podia ser feito. Espero que daqui a 50 anos, ao saberem do meu tratamento, as pessoas se espantem com ciência tão primitiva.

Depressão é a imperfeição no amor. Se você fosse casado e pensasse: “Se minha esposa morrer, encontrarei outra”, não seria amor como o conhecemos. Amor não existe sem a antecipação da perda, e esse espectro do desespero pode ser o motor da intimidade.

Há três coisas que tendemos a confundir: depressão, sentimento de luto e tristeza. O luto é explicitamente reativo. Se você vive uma perda, sente-se muito infeliz, e, seis meses depois, você ainda está muito triste, mas um pouco melhor, provavelmente, é luto. E provavelmente se resolverá de alguma forma. Se você vivencia uma perda catastrófica, sente-se péssimo, e, seis meses depois, continua muito mal, talvez seja depressão desencadeada pelas circunstâncias catastróficas. A trajetória nos diz muito. As pessoas pensam em depressão apenas como tristeza. Ela é excesso de tristeza, excesso de luto, por uma causa qualquer.

Ao me preparar para entender a depressão, e entrevistar quem a vivera, percebi que havia gente que parecia à beira de ter uma depressão branda, e mesmo assim, ficava incapacitada por ela. E outros tinham algo descrito como depressão terrivelmente severa, que viviam bem nos intervalos dos episódios depressivos. Então, planejei descobrir o que faz com que uns sejam mais resilientes que outros. Quais são os mecanismos que os permitem sobreviver? E fui entrevistando pessoas que sofriam de depressão.

Uma das primeiras entrevistadas, descreveu a depressão como um meio mais lento de morrer, e foi bom ouvir isso logo no início porque me fez lembrar que esse jeito lento de morrer pode levar à morte real, que é um negócio sério. É a principal doença incapacitante do mundo, e as pessoas morrem disso todos os dias.

Conversei com uma pessoa, quando tentava entender isso, uma amiga querida que conhecia há anos, e tivera um surto psicótico no primeiro ano de faculdade, e mergulhou em uma depressão horrível. Ela era bipolar, ou maníaco-depressiva, como assim era chamado. E ela ficou muito bem por anos, tomando lítio, e depois, parou de tomá-lo, para ver como ficaria sem ele, e teve outro surto, e se afundou na maior depressão que eu já vira. Ela ficava no apartamento dos pais, meio catatônica, imóvel, dia após dia. Eu a entrevistei sobre essa experiência, anos depois… Ela é poeta e psicoterapeuta, chama-se Maggie Robbins… Quando a entrevistei, ela disse: “Eu cantava ‘Where Have All The Flowers Gone’ o tempo todo, para ocupar minha mente. Cantava para expulsar o que minha mente dizia, que era: ‘Você não é nada. Você não é ninguém. Nem merece viver.’ E comecei seriamente a pensar em me matar.”

Com depressão, você não pensa que pôs um véu cinza e vê o mundo através da névoa do mal humor. Você pensa que o véu foi retirado, o véu da felicidade, e que agora você vê de verdade. É mais fácil ajudar esquizofrênicos que percebem existir algo estranho neles que precisa ser exorcizado, mas é difícil com deprimidos, pois acreditamos ver a verdade.

Mas a verdade mente… Fiquei obcecado com essa frase: “Mas a verdade mente.” Descobri, ao conversar com deprimidos, que eles têm muitas percepções ilusórias. Alguém diz: “Ninguém me ama.” E você diz: “Eu o amo, sua esposa o ama, sua mãe o ama.” Você responde isso na hora, ao menos, a maioria. Mas o deprimido também diz: “Não importa o que façamos, vamos todos morrer, afinal.” Ou diz: “Não há comunhão verdadeira entre dois seres humanos. Estamos presos em nosso próprio corpo.” A quem você terá que dizer: “É verdade, mas agora devemos focar o que comer no café da manhã.” (Risos) Muitas vezes, o que expressam não é doença, e sim insight, e chegamos a pensar que o extraordinário é que a maioria sabe dessas perguntas existenciais e elas não nos distraem tanto assim. Gostei de um estudo, em que um grupo de deprimidos e um de não deprimidos tinham que jogar videogame por uma hora, e, ao final do tempo, respondiam quantos monstrinhos eles pensavam ter matado. Os deprimidos tinham uma precisão em torno de 10%, e os não deprimidos falaram um número 15 a 20 vezes maior de monstrinhos — (Risos) — do que o que tinham efetivamente matado.

Ao escrever sobre minha depressão, diziam que deve ser muito difícil sair do armário, as pessoas saberem… Perguntavam: “Falam diferente com você?” E dizia: “Sim, falam diferente. Elas falam diferente, na medida em que me contam suas experiências, ou a da irmã, ou do amigo. É diferente porque agora sei que depressão é o segredo de família que todo mundo tem.”

Há alguns anos, fui a uma conferência, e, no primeiro dia do evento, uma participante me chamou de lado e disse: “Sofro de depressão e fico um pouco envergonhada com isso, mas tomo esse medicamento, e queria saber sua opinião.” Tentei aconselhá-la da melhor forma. Então, ela disse: “Sabe, meu marido jamais entenderia. Ele não entende o sentido disso, então, sabe, fica só entre nós.” E falei: “Certo, tudo bem.” No último dia da conferência, o marido dela me chamou de lado, e disse: “Minha esposa pensará que não sou homem de verdade se souber que estou lidando com depressão e tomo medicamento, e gostaria da sua opinião.” Eles escondiam medicamentos iguais em locais distintos do mesmo quarto. Eu disse que pensava que a comunicação no casamento estava causando problemas. (Risos) Eu também fiquei surpreso pela natureza opressiva de tal segredo mútuo. A depressão é muito exaustiva. Toma muito tempo e energia, e o silêncio agrava a depressão.

E, comecei a pensar sobre o que faz as pessoas melhorarem. Comecei com a medicina conservadora. Eu achava que havia algumas terapias que funcionavam, estava claro quais eram… havia medicamentos, certas psicoterapias, talvez, tratamento eletroconvulsivo, e que o restante era besteira. Então, descobri uma coisa. Se você tem câncer no cérebro, e diz que ficar de ponta-cabeça 20 minutos todo dia faz você se sentir melhor, talvez se sinta melhor, mas ainda tem câncer, e ainda poderá morrer. Mas se você diz que tem depressão, e que ficar de ponta-cabeça de manhã faz você melhorar, então, funcionou, pois é a doença de como você se sente, e se você se sente melhor, então, não está mais deprimido. Assim, tornei-me mais tolerante ao vasto mundo de tratamentos alternativos.

E recebo cartas, centenas de cartas, de gente que diz o que funciona. Hoje, perguntaram-me nos bastidores sobre meditação. Minha carta favorita é a de uma mulher que disse que tentou terapia, medicamentos, tentou quase tudo. Achou uma solução e desejava que o mundo soubesse: fazer coisinhas de lã. (Risos) Ela me enviou algumas peças. (Risos) Não estou usando uma hoje. Sugeri que ela desse uma olhada em comportamento obsessivo compulsivo no manual.

Ainda assim, ao pesquisar tratamentos alternativos, ganhei perspectiva sobre vários tipos de tratamentos. Passei por um exorcismo tribal, no Senegal, que envolvia sangue de carneiro, e não entrarei em detalhes, mas, anos depois, fui à Ruanda num projeto diferente, e descrevi minha experiência a alguém, que disse: “Bem, sabe, aqui na África Oriental os rituais são muito diferentes, mas temos rituais com algo em comum com o que descreveu.” Falei: “Oh”. E ele: “Sim. Mas houve problemas com profissionais da saúde do Ocidente, os que vieram após o genocídio.” Eu disse: “Que tipo de problema?” Ele disse: “Bem, eles faziam algo bizarro. Ninguém tomava banho de sol para se sentir melhor. Não incluíam batuques ou música para animá-los. Não envolviam a comunidade. Não externavam a depressão como um espírito invasor. Ao contrário, levavam as pessoas, uma a uma, para quartinhos escuros e elas falavam por uma hora sobre o que acontecera de ruim.” (Risos) (Aplausos) Falou: “Pedimos que deixassem o país.” (Risos)

Na outra ponta dos tratamentos alternativos… vou falar sobre Frank Russakoff. Ele tinha a pior depressão que eu talvez tenha visto em um homem. Ele estava sempre deprimido. Eu o conheci em uma época em que todo mês ele tinha tratamento de choque. Ficava meio desorientado por uma semana. Depois, ficava bem uma semana. Tinha outra semana de piora. E uma semana de tratamento de choque. Quando o vi, ele disse: “É insuportável passar semanas assim. Não aguento mais, e já sei como acabar com isso se eu não melhorar. Aí, ele disse: “Soube de um protocolo no hospital, um procedimento, cingulotomia, cirurgia no cérebro, e acho que vou tentar.” Lembro de ter me espantado por pensar que alguém com tantas experiências ruins, com tantos tratamentos, ainda tinha dentro de si algum otimismo para almejar mais um. Ele fez a cingulotomia, e foi incrivelmente bem sucedida. Ele agora é meu amigo. Tem uma esposa adorável e dois filhos lindos. Ele me escreveu uma carta, após a cirurgia, e disse: “Meu pai me deu dois presentes este ano. Uma torre de CD, da “The Sharper Image”, de que eu não precisava, mas sei que foi para comemorar o fato de eu viver por conta própria, com um emprego que adoro. O outro presente era uma foto da minha avó, que cometeu suicídio. Ao abrir o presente, comecei a chorar, e minha mãe disse: ‘Está chorando pelos parentes que não conheceu?’ Falei: ‘Ela teve a mesma doença que eu.’ Choro agora ao lhe escrever. Não estou muito triste, e sim emocionado, pois, poderia quase ter me matado, mas meu pais me deram força, assim como os médicos, e fiz a cirurgia. Estou vivo e agradecido. Vivemos na época certa, mesmo que nem sempre pareça.”

Fiquei perplexo que a depressão seja amplamente entendida como algo moderno, ocidental, de classe média, e fui ver como ela funciona em vários outros contextos, e algo que me interessou muito foi a depressão entre indigentes. Fui dar uma olhada no que se faz para pobres com depressão. Descobri que eles geralmente não são tratados de depressão. Depressão resulta da vulnerabilidade genética, distribuída igualitariamente na população, e circunstâncias desencadeadoras, que costumam ser mais severas em pessoas mais pobres. Se você tem uma vida agradável mas se sente infeliz o tempo todo, pensa: “Por que me sinto assim? Devo estar com depressão.” E busca tratamento. Mas, se tem uma vida horrível, e sente-se péssimo o tempo todo, você se sente de acordo com sua vida, e não lhe ocorre pensar: “Talvez exista tratamento.” E assim temos uma epidemia neste país, de depressão entre os mais pobres que não é diagnosticada, tratada, e nem combatida, o que é uma grande tragédia. Conheci uma acadêmica que fazia projeto de pesquisa em favelas nos arredores de Washington, com mulheres com outras queixas de saúde, e diagnosticava a depressão, e dava-lhes seis meses do protocolo experimental. Uma delas, Lolly, chegou, e eis o que disse… Ela é uma mulher que teve sete filhos. Disse: “Eu tinha emprego, mas desisti dele porque não conseguia sair de casa. Não tenho assunto com meus filhos. De manhã, mal espero eles saírem, volto para a cama, cubro-me com o cobertor, e quando voltam às 15:00, sinto que o tempo voou.” Ela disse: “Tomo um monte de Tylenol, qualquer coisa para dormir mais. Meu marido diz que sou burra, feia. Queria muito acabar com a dor.”

Ela veio para o protocolo experimental, e quando a entrevistei seis meses depois, ela trabalhava numa creche da Marinha, deixara o marido ofensor, e disse: “Meus filhos estão mais felizes. Há um quarto em minha nova casa para os meninos e outro para as meninas, mas, à noite, vão todos para a minha cama, e fazemos dever de casa juntos. Um menino quer ser pastor, o outro bombeiro, e uma menina quer ser advogada. Não choram mais como antes, nem brigam como antes. Tudo que preciso agora são meus filhos. As coisas estão mudando: o jeito como me visto, sinto e ajo. Agora, consigo sair sem sentir medo. Acho que os sentimentos ruins não voltarão, e se não fosse por Dra. Miranda, ainda estaria em casa, com o cobertor sobre a cabeça, se é que ainda estaria viva. Pedi ao Senhor que me enviasse um anjo, e Ele escutou minhas preces.”

Fiquei muito emocionado com esses relatos, e decidi escrever sobre eles não apenas num livro, mas também num artigo, e, a pedido da “The New York Times Magazine” escrevi sobre depressão entre indigentes.

Entreguei a história, e minha editora me disse: “Não podemos publicar.”

E falei: “Por que não?”

Ela disse: “É inverossímil. Essas pessoas que estão na camada mais baixa da sociedade, fazem uns meses de tratamento e podem comandar a Bolsa de Valores? É muito implausível.” Falou: “Nunca soube de algo assim.”

E falei: “O fato de você não saber indica que é notícia.” (Risos) (Aplausos) “E vocês são uma revista de notícias.”

Depois de alguma negociação, eles aceitaram. Penso que o que disseram está ligado, de uma forma estranha, à aversão que as pessoas ainda têm à ideia do tratamento, à noção de que se fôssemos tratar muita gente nas comunidades carentes, seria uma exploração. Estaríamos modificando-as. Há essa falsa moral imperativa a nossa volta, de que tratamento de depressão, e medicamentos são um artifício, que não é natural. Acho que é um grande equívoco. Seria natural que os dentes caíssem, mas ninguém milita contra a pasta dental, não que eu saiba.

As pessoas dizem: “Mas a depressão não é parte do que devemos vivenciar? Não evoluímos para ter depressão? Não é parte da personalidade?” Eu diria: o humor é adaptável. Ser capaz de sentir tristeza, medo, alegria, prazer e todos os outros humores é muito valioso. Depressão severa é algo que acontece quando esse sistema se rompe, fica mal ajustado.

As pessoas me dizem: “Penso que, se ficar firme por mais um ano, consigo me livrar dela.”

Sempre digo: “Talvez consiga, mas jamais terá 37 anos de novo. A vida é curta, é mais um ano inteiro, do qual você desistirá. Pense nisso.”

É uma pobreza estranha da língua inglesa, e de tantas outras, que usemos a mesma palavra, depressão, ao descrever como uma criança se sente se chove no seu aniversário, e descrever como alguém se sente um minuto antes de cometer suicídio.

Perguntam: “A tristeza normal é contínua?” E digo, de um modo, a tristeza normal é contínua. Há uma certa continuidade, assim como há continuidade, entre uma cerca de ferro, com um ponto de ferrugem que você lixa e repinta, e o que ocorre se você sai de casa por 100 anos, é que a cerca enferruja até virar uma pilha de pó. É esse ponto de ferrugem, esse ponto de problema, a que nos referimos.

Agora as pessoas dizem: “Você toma uma pílula da felicidade e fica feliz?” Não fico. Mas não fico triste por ter que almoçar, não fico triste pela secretária eletrônica, nem por tomar banho. Sinto mais, na verdade, porque não me sinto anulado pela tristeza. Sinto-me triste com decepções profissionais, com relacionamentos ruins, com o aquecimento global. Essas são as coisas que me entristecem no momento. Disse a mim mesmo: “Qual é a conclusão? Como as pessoas que têm vidas melhores, mesmo com depressão mais grave, saíram dela? Qual é o mecanismo da resiliência?” Cheguei à conclusão de que quem renega sua experiência, e diz: “Estive deprimido há muito tempo e nunca mais quero pensar ou saber disso, e vou apenas seguir com a vida”, ironicamente, essas são as pessoas mais escravizadas pelo que têm. Afastar a depressão a fortalece. Ao se esconder dela, ela cresce. E as pessoas que se dão melhor são as capazes de suportar o fato de terem essa condição. Aqueles que consegue aceitar a depressão são os que encontram resiliência.

Frank Russakoff me disse: “Se tivesse que fazer de novo, acho que não faria desse jeito, mas, ainda assim, sou grato pelo que vivenciei. Sou grato pelas 40 idas ao hospital. Aprendi muito sobre o amor, e a relação com meus pais e médicos é preciosa para mim e sempre será.”

Maggie Robbins disse: “Eu era voluntária em uma clínica de AIDS, e eu falava e falava, e lidava com pessoas não muito receptivas, e pensava: ‘Elas não são muito simpáticas ou prestativas.’ Aí compreendi que elas não se empenhariam além daqueles minutos de conversa fiada. Era apenas uma ocasião em que eu não tinha AIDS, e não estava morrendo, mas poderia suportar o fato de que elas tinham e morreriam. Nossas necessidades são nosso bem maior. Aprendi a dar tudo o que eu preciso.”

Valorizar a nossa depressão não previne recaída, mas pode fazer a perspectiva da recaída ou mesmo a recaída em si, mais fácil de suportar. A questão não é tanto encontrar grande significado e decidir que sua depressão significa muito. É buscar esse significado e pensar quando ela voltar: “Vai ser um inferno, mas aprenderei algo.” Aprendi com minha própria depressão como uma emoção pode ser imensa, como ela pode ser mais real do que fatos, e descobri que essa experiência me permite vivenciar emoção positiva de um jeito mais intenso e focado. O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade, e, atualmente, minha vida é vital, mesmo nos dias em que estou triste. Senti aquele féretro no meu cérebro, e sentei-me próximo ao colosso, à beira do mundo, e descobri algo dentro de mim, que chamo de alma, que eu nunca elaborara até aquele dia, 20 anos atrás, quando o diabo me fez uma visita surpresa. Acho que ao odiar estar deprimido, e odiaria novamente, descobri um jeito de amar minha depressão. Eu a amo por ela ter me forçado a buscar alegria e a me agarrar a ela. Eu a amo porque, todos os dias, eu decido, às vezes com bravura, e outras, contra a razão do momento, agarrar-me às razões de viver. E isso é um grande privilégio.

Obrigado.

(Aplausos)

Palestra de Andrew Solomon ao TED. Filmada em outubro/2013 e postada em dezembro/2013. Tradução de Viviane Ferraz Matos e revisão de Nadja Nathan.

Disponível em vídeo aqui