Em busca de uma identidade - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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Em busca de uma identidade

Em busca de uma identidade

Andrew Solomon

 

Eu tinha dislexia* quando criança; na verdade, ainda tenho. Não consigo escrever à mão sem me concentrar em cada letra enquanto a escrevo, e mesmo quando faço isso algumas letras ficam fora de ordem ou são omitidas. Minha mãe, que identificou a dislexia cedo, começou a trabalhar a leitura comigo quando eu tinha dois anos. Passei longas tardes em seu colo, aprendendo a emitir palavras, treinando como um atleta olímpico em fonética; praticamos letras como se nenhuma forma pudesse ser mais encantadora do que as dela. Para manter a minha atenção, ela me deu uma caderneta com capa de feltro amarelo em que o Ursinho Puff e o Tigrão estavam costurados; fazíamos cartões de memória e jogávamos com eles no carro. Eu adorava a atenção, e minha mãe ensinava com um senso de diversão, como se aquilo fosse o melhor quebra-cabeças do mundo, um jogo particular entre nós. Quando eu tinha seis anos, meus pais tentaram me matricular em onze escolas de Nova York, e todas me rejeitaram, alegando que eu nunca aprenderia a ler e escrever. Um ano depois, eu estava matriculado em uma escola onde o diretor permitiu a contragosto que minhas habilidades de leitura avançadas prevalecessem sobre os resultados dos testes que previam que eu jamais aprenderia a ler. Os padrões de triunfo perpétuo eram altos em nossa casa, e aquela vitória inicial sobre a dislexia foi formadora: com paciência, amor, inteligência e vontade, havíamos derrotado uma anormalidade neurológica. Infelizmente, ela preparou o palco para nossas lutas posteriores, tornando difícil acreditar que não poderíamos reverter a evidência arrepiante de outra anormalidade percebida – o fato de eu ser gay.

As pessoas perguntam quando eu soube que era gay, e eu me pergunto o que esse conhecimento implica. Levou algum tempo para eu me tornar consciente de meus desejos sexuais. A percepção de que o que eu queria era exótico e fora de sintonia com a maioria veio tão cedo que não me lembro de um tempo que a precedesse. Estudos recentes mostraram que com dois anos os meninos que virão a ser gays já são avessos a certos tipos de brincadeiras violentas; aos seis anos de idade, a maioria vai se comportar de uma maneira obviamente não conforme ao gênero. Uma vez que pude perceber cedo que muitos dos meus impulsos não eram masculinos, passei a me inventar. No ensino fundamental, quando cada aluno foi convidado a indicar sua comida favorita e todo mundo disse sorvete, hambúrguer ou rabanada, eu orgulhosamente escolhi ekmek kadayiff com kaymak, que eu costumava pedir num restaurante armênio da rua 27 Leste. Nunca troquei figurinhas de beisebol, mas contava enredos de óperas no ônibus escolar. Nada disso me tornou popular.

Eu era popular em casa, mas estava sujeito a correções. Quando eu tinha sete anos, minha mãe, meu irmão e eu estávamos na Indian Walk Shoes e, na saída, o vendedor perguntou de que cor queríamos os balões. Meu irmão quis um balão vermelho. Eu quis um cor-de-rosa. Minha mãe contrapôs que eu não queria um balão cor-de-rosa e me lembrou que minha cor favorita era azul. Eu disse que realmente queria o rosa, mas diante de seu olhar peguei o azul. Que minha cor favorita ainda seja o azul mas mesmo assim que eu ainda seja gay são provas tanto da influência de minha mãe como de seus limites. Ela disse certa vez: “Quando você era pequeno, não gostava de fazer o que as outras crianças gostavam de fazer, e eu o encorajei a ser você mesmo”. E acrescentou, com certa ironia: “Às vezes acho que deixo as coisas irem longe demais”. Algumas vezes pensei que ela não as deixou ir longe o suficiente. Mas seu incentivo à minha individualidade, embora ambivalente, moldou minha vida.

Minha nova escola tinha ideias quase liberais e deveria ser inclusiva – o que significava que nossa turma tinha algumas crianças negras e latinas com bolsa de estudos, as quais, em sua maioria, preferiam a companhia umas das outras. Em meu primeiro ano lá, Debbie Camacho fez uma festa de aniversário no Harlem, e seus pais, não familiarizados com a lógica da educação particular em Nova York, marcaram-na para o mesmo fim de semana da tradicional festa de reencontro de ex-alunos. Minha mãe perguntou como eu me sentiria se ninguém comparecesse à minha festa de aniversário e insistiu que eu fosse. Duvido que muitas crianças da minha turma teriam ido à festa, mesmo que não houvesse uma desculpa conveniente como aquela, mas, na realidade, apareceram apenas duas crianças brancas de uma turma de quarenta. Eu me senti francamente aterrorizado de estar lá. As primas da aniversariante tentaram me tirar pra dançar; todo mundo falava espanhol, havia frituras esquisitas, tive uma espécie de ataque de pânico e fui pra casa aos prantos.

Não tracei paralelos entre a ausência de todos na festa de Debbie e minha própria impopularidade, mesmo quando, alguns meses depois, Bobby Finkel deu uma festa de aniversário e convidou toda a turma, menos eu. Minha mãe ligou para a mãe dele supondo que houvera um erro; a sra. Finkel disse que seu filho não gostava de mim e não me queria em sua festa. Minha mãe me pegou na escola no dia da festa e me levou ao zoológico, depois fomos tomar um sundae de chocolate no Old-Fashioned Mr. Jennings. É somente numa visão retrospectiva que imagino como minha mãe ficou magoada por mim, mais magoada do que eu estava, ou do que eu deixava perceber que estava. Não adivinhei então que sua ternura era uma tentativa de compensar os insultos do mundo. Quando contemplo o desconforto dos meus pais com minha homossexualidade, posso ver como minhas vulnerabilidades deixavam minha mãe vulnerável, e como ela queria antecipar-se à minha tristeza garantindo que fôssemos a nossa própria diversão. A proibição do balão cor-de-rosa deve ser considerada, em parte, um gesto de proteção.

Felizmente minha mãe me fez ir à festa de aniversário de Debbie Camacho, porque acho que era a coisa certa a fazer e porque, embora eu não pudesse perceber na época, era o começo de uma atitude de tolerância que possibilitou que eu me aceitasse e encontrasse a felicidade na idade adulta. É tentador pintar a mim e minha família como faróis de excepcionalidade liberal, mas não éramos. Provoquei um aluno afro-americano na escola primária afirmando que ele lembrava uma foto de uma criança tribal numa maloca africana que havia em nosso livro de estudos sociais. Eu não achava que isso fosse racista, achava que era engraçado e vagamente verdadeiro. Mais tarde, lembrei-me do meu comportamento com profundo pesar e, quando a pessoa em questão me encontrou no Facebook, pedi mil desculpas. Eu disse que minha única desculpa era que não era fácil ser gay na escola, e que eu tinha exteriorizado o preconceito que sofria na forma de preconceito com os outros. Ele aceitou meu pedido de desculpas e mencionou que também era gay; tornou-me humilde o fato de ele ter sobrevivido, numa situação em que ambos os tipos de preconceito estavam em jogo.

Eu lutava nas águas traiçoeiras do ensino fundamental, mas em casa, onde o preconceito nunca foi tingido com crueldade, meus déficits mais difíceis eram minimizados e meus caprichos eram, em sua maioria, vistos com bom humor. Quando estava com dez anos, fiquei fascinado pelo minúsculo principado de Liechtenstein. Um ano mais tarde, meu pai levou-nos numa viagem de negócios a Zurique, e certa manhã minha mãe anunciou que tinha arranjado para que todos fôssemos a Vaduz, capital do principado. Lembro-me com emoção ao ver que toda a família estava satisfazendo o que era claramente um desejo só meu. Vista agora, a preocupação com Liechtenstein parece estranha, mas a mesma mãe que proibiu o balão cor-de-rosa pensou e organizou aquele dia: o almoço em um café charmoso, uma visita ao museu de arte, uma visita à gráfica onde eles fazem os inconfundíveis selos postais do país. Embora nem sempre me sentisse aprovado, sempre me senti reconhecido e me era dada a latitude da minha excentricidade. Mas havia limites, e os balões cor-de-rosa estavam do lado errado deles. A regra de nossa família era interessar-se pela alteridade dentro de um pacto de igualdade. Eu queria parar de apenas observar o vasto mundo e habitar em sua amplitude: queria mergulhar para apanhar pérolas, memorizar Shakespeare, romper a barreira do som, aprender a tricotar. De certo ponto de vista, o desejo de transformar-me pode ser visto como uma tentativa de me libertar de uma forma indesejável de ser. De outro, era um gesto em direção ao meu eu essencial, um giro crucial na direção de quem eu viria a ser.

Mesmo no jardim de infância, eu passava o recreio conversando com meus professores, porque as outras crianças não me entendiam; é provável que os professores também não entendessem, mas tinham idade suficiente para ser educados. Na sétima série, eu costumava almoçar no escritório da sra. Brier, secretária do diretor da escola. Formei-me no ensino médio sem visitar o refeitório, onde eu teria sentado com as meninas e sido objeto de chacota por fazê-lo, ou com os meninos e ser objeto de chacota por ser o tipo de garoto que deveria realmente sentar-se com as meninas. O impulso para a conformidade que com tanta frequência define a infância nunca existiu para mim, e, quando comecei a pensar sobre sexualidade, a não conformidade do desejo pelo mesmo sexo me entusiasmou – a percepção de que o que eu queria era ainda mais diferente e proibido do que todo o sexo é para os jovens. Eu sentia a homossexualidade como se fosse uma sobremesa armênia ou um dia em Liechtenstein. Não obstante, pensava que se alguém descobrisse que eu era gay, eu teria de morrer.

Minha mãe não queria que eu fosse gay porque ela achava que não seria o caminho mais feliz para mim, mas também porque não gostava da imagem de ser mãe de um filho gay. O problema não era que ela quisesse controlar a minha vida – embora ela acreditasse, como a maioria dos pais, que sua maneira de ser feliz era a melhor maneira de ser feliz. O problema era que ela queria controlar a vida dela, e era a vida como mãe de um homossexual que ela desejava alterar. Infelizmente, não havia maneira de ela resolver seu problema sem me envolver.

Aprendi a odiar profunda e precocemente esse aspecto da minha identidade porque aquele desconforto repetia uma reação da família a uma identidade vertical**. Minha mãe achava que era indesejável ser judeu. Ela aprendera essa atitude com meu avô, que mantinha sua religião em segredo para que pudesse ter um cargo de alto nível em uma empresa que não empregava judeus. Ele pertencia a um clube de subúrbio no qual os judeus não eram bem-vindos. Quando tinha seus vinte e poucos anos, minha mãe ficou noiva de um texano, mas o rapaz rompeu o noivado quando a família ameaçou deserdá-lo se ele se casasse com uma judia. Para ela, foi um trauma de reconhecimento de si mesma, pois até então não se pensava como judia; achava que poderia ser quem quer que parecesse ser. Cinco anos depois, ela decidiu se casar com meu pai, um judeu, e viver em um mundo em grande parte judaico, mas carregava o antissemitismo dentro dela. Ela via pessoas que se encaixavam em certos estereótipos e dizia: “Essas são as pessoas que nos dão um nome ruim”. Quando lhe perguntei o que achava da beldade muito cobiçada da minha turma da nona série, ela disse: “Ela parece muito judia”. Seu lastimável método de duvidar de si mesma foi organizado para mim em torno de ser gay: herdei seu dom para o desconforto.

Muito tempo depois da infância, agarrei-me a coisas infantis como uma barreira contra a sexualidade. Essa imaturidade intencional era revestida por um puritanismo vitoriano afetado que não visava mascarar o desejo, mas obliterá-lo. Eu tinha uma ideia absurda de que seria Cristóvão para sempre no Bosque dos Cem Acres; com efeito, o último capítulo dos livros do Ursinho Puff era tão parecido com minha história que eu não suportava ouvi-lo, embora fizesse meu pai ler para mim centenas de vezes todos os outros capítulos. A casa no cantinho do Puff termina assim: “Onde quer que vão e o que quer que aconteça com eles no caminho, naquele lugar encantado no topo da Floresta, um menino e seu urso estarão sempre brincando”. Decidi que seria aquele menino e aquele urso, que me congelaria na puerilidade, porque o que o crescimento pressagiava para mim era humilhante demais. Aos treze anos, comprei um exemplar da Playboy e passei horas estudando a revista, tentando resolver meu desconforto com a anatomia feminina; foi muito mais penoso do que minha lição de casa. Quando cheguei ao ensino médio, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de fazer sexo com mulheres; eu sentia que não seria capaz de fazê-lo, e muitas vezes pensei em morrer. A metade de mim que não planejava ser Cristóvão brincando para sempre em um lugar encantando planejava ser Anna Kariênina jogando-se na frente de um trem. Era uma dualidade ridícula.

Quando eu estava no oitava série da Horace Mann School, em Nova York, um garoto mais velho me apelidou de Percy [afeminado], numa referência ao meu comportamento. Tomávamos o mesmo ônibus escolar e, todos os dias, quando eu subia, ele e seus comparsas gritavam “Percy! Percy! Percy!”. Às vezes eu sentava com um estudante sino-americano que era tímido demais para falar com os outros (e se revelou ser gay também), às vezes com uma menina quase cega, que também era objeto de considerável crueldade. Às vezes, todos os que estavam no ônibus gritavam a provocação durante toda a viagem. “Per-cy! Per-cy! Per-cy! Per-cy!” a plenos pulmões por 45 minutos: subindo a Terceira Avenida, pela FDR Drive, através da Willis Avenue Bridge, por toda a Major Deegan Expressway, e na rua 246, em Riverdale. A menina cega repetia que eu deveria “simplesmente ignorá-los”, e então eu ficava lá fingindo de forma não convincente que aquilo não estava acontecendo.

Quatro meses depois que isso começou, cheguei em casa um dia e minha mãe perguntou: “Tem alguma coisa acontecendo no ônibus escolar? Outros estudantes estão chamando você de Percy?”. Um colega contara para a mãe dele, que, por sua vez, telefonara para a minha. Quando admiti que era verdade, ela me abraçou por um longo tempo e depois perguntou por que eu não lhe havia contado. Isso nunca me ocorrera: em parte porque falar de algo tão degradante parecia apenas materializá-lo, em parte porque pensei que não havia nada a ser feito, e também achava que as características pelas quais eu estava sendo torturado seriam igualmente repugnantes para minha mãe, e eu queria protegê-la da decepção.

A partir de então, uma acompanhante passou a andar no ônibus escolar e o coro parou. Eu era apenas chamado de “bicha” no ônibus e na escola, muitas vezes a uma distância em que os professores podiam ouvir e não faziam objeções. Naquele mesmo ano, meu professor de ciências nos contou que os homossexuais desenvolviam incontinência fecal porque seus esfíncteres anais eram destruídos. A homofobia era onipresente na década de 1970, mas a cultura presunçosa da minha escola produzia uma versão pungentemente aprimorada dela.

Em junho de 2012, a New York Times Magazine publicou um artigo de um ex-aluno da Horace Mann, Amos Kamil, sobre o abuso predatório de meninos perpetrado por alguns membros masculinos do corpo docente da escola quando estudei lá. O artigo citava estudantes que tiveram problemas de dependência de drogas e outros comportamentos autodestrutivos na esteira de tais episódios; um homem se suicidara na meia-idade, numa culminação do desespero que sua família rastreou até aquela exploração juvenil. O artigo deixou-me profundamente triste – e confuso, porque alguns dos professores acusados de tais atos haviam sido mais amáveis comigo do que qualquer outra pessoa na minha escola durante um período sombrio. Meu adorado professor de história levava-me para jantar fora, deu-me um exemplar da Bíblia de Jerusalém e conversava comigo nos períodos livres, quando outros alunos não queriam nada comigo. O professor de música concedeu-me solos de concertos, deixava-me chamá-lo por seu prenome e ficar em sua sala, e comandava as viagens do coral que estavam entre as minhas mais felizes aventuras. Eles pareciam reconhecer quem eu era e pensavam bem de mim de qualquer maneira. O reconhecimento implícito da minha sexualidade por parte deles me ajudou a não me tornar dependente de drogas ou suicida.

Quando eu estava na nona série, o professor de artes da escola (que também era treinador de futebol) insistia em iniciar uma conversa comigo sobre masturbação. Eu ficava paralisado: achava que isso poderia ser uma forma de cilada e que, se respondesse, ele diria a todos que eu era gay, e eu seria objeto de ainda mais chacota. Nenhum outro professor deu em cima de mim, talvez porque eu fosse um garoto magrela, socialmente desajeitado, de óculos e suspensórios, ou porque meus pais tivessem uma reputação de vigilância protetora, ou ainda porque eu assumisse um isolamento arrogante que me tornava menos vulnerável do que outros.

O professor de artes foi demitido quando surgiram alegações contra ele logo depois de nossas conversas. O professor de história foi embora e se suicidou um ano depois. O de música, que era casado, sobreviveu ao “reinado do terror” que se seguiu, como um professor gay chamou mais tarde, quando muitos professores homossexuais foram demitidos. Kamil escreveu-me que as demissões de professores gays não predadores decorreram de “uma tentativa equivocada de erradicar a pedofilia através de uma falsa equiparação dela com a homossexualidade”. Os alunos diziam monstruosidades até para professores gays porque o preconceito deles era obviamente endossado pela comunidade escolar.

Anne MacKay, chefe do departamento de teatro, foi uma lésbica que sobreviveu com discrição às recriminações. Vinte anos depois de me formar, eu e ela começamos a nos corresponder por e-mail. Fui até a extremidade leste de Long Island para visitá-la uma década mais tarde, quando soube que ela estava morrendo. Havíamos ambos sido contatados por Amos Kamil, que na época fazia pesquisas para seu artigo, e estávamos ambos abalados pelas acusações que ele compartilhara conosco. A srta. MacKay havia sido a sábia mestra que uma vez explicou delicadamente que eu era provocado por causa da maneira como andava, e tentou mostrar-me uma passada mais confiante. Ela encenou A importância de ser prudente em meu último ano para que eu pudesse ter uma chance de estrelato no papel de Algernon. Eu fora até lá para lhe agradecer. Mas ela me convidara para se desculpar.

Em um emprego anterior, explicou, correra o rumor de que ela vivia com outra mulher, os pais reclamaram, e ela entrara numa espécie de esconderijo pelo resto de sua carreira. Agora, lamentava a distância formal que mantivera e achava que falhara com os estudantes gays, para quem poderia ter sido um farol – embora eu soubesse, e ela também, que se tivesse sido mais aberta teria perdido o emprego. Quando fui seu aluno, nunca pensei em perguntar sobre uma intimidade maior do que a que tínhamos, mas, conversando décadas depois, percebi o quão desamparados ambos havíamos ficado. Eu gostaria que pudéssemos ter tido a mesma idade por um tempo, porque a pessoa que sou aos 48 anos seria um bom amigo de quem ela era quando me dava aulas na juventude. Fora da escola, MacKay era militante gay; agora, eu também sou. Quando eu estava na escola, sabia que ela era gay e ela sabia que eu era gay; no entanto, cada um de nós estava aprisionado por sua homossexualidade de uma maneira que tornava a conversa direta impossível, deixando-nos apenas a bondade para dar um ao outro, em vez da verdade. Vê-la depois de tantos anos despertou minha antiga solidão e me lembrei de como uma identidade excepcional pode causar isolamento, a não ser que a transformemos numa solidariedade horizontal.

Na inquietante reunião on-line de ex-alunos da Horace Mann que aconteceu depois da publicação da matéria de Amos Kamil, um homem descreveu sua tristeza tanto pelas vítimas de abuso como pelos agressores, dizendo destes últimos: “Eles eram pessoas feridas, confusas, tentando descobrir como funcionar em um mundo que lhes ensinou que seu desejo homossexual era doentio. As escolas espelham o mundo em que vivemos. Elas não podem ser lugares perfeitos. Nem todo professor será uma pessoa emocionalmente equilibrada. Podemos condenar esses professores. Mas isso trata apenas de um sintoma, não do problema original, que é que uma sociedade intolerante cria pessoas que se odeiam e que se comportam de forma inadequada”. O contato sexual entre professores e alunos é inaceitável porque explora um diferencial de poder que obscurece a demarcação entre coerção e consentimento. Com frequência, isso causa traumas irrecuperáveis. Foi o que claramente aconteceu com os alunos entrevistados e descritos por Kamil. Ao perguntar-me como meus professores puderam fazer aquilo, pensei que alguém cujo ser íntimo é considerado uma doença e uma ilegalidade pode lutar para analisar a distinção entre isso e um crime muito maior. Tratar uma identidade como doença convida a verdadeira doença a assumir uma postura mais corajosa.

Os jovens têm oportunidades sexuais com frequência, especialmente em Nova York. Uma de minhas tarefas era passear nossa cadela antes de dormir, e quando eu tinha catorze anos descobri dois bares gays perto de nosso apartamento: Uncle Charlie’s Uptown e Camp David. Eu passeava com Martha, nossa kerry blue terrier, num circuito que incluía esses dois empórios de carne com jeans, vendo os sujeitos se espalharem pela avenida Lexington, enquanto Matha puxava suavemente pela coleira. Um homem que disse se chamar Dwight me seguiu e me puxou para uma entrada de casa. Eu não poderia ir com Dwight ou outros, porque se o fizesse estaria me transformando em outra pessoa. Não me lembro da aparência de Dwight, mas seu nome me deixa melancólico. Quando por fim mantive relações sexuais com um homem, aos dezessete anos, achei que estava me separando para sempre do mundo normal. Fui para casa e fervi minhas roupas, tomei um longo banho escaldante de uma hora, tempo longo, como se minha transgressão pudesse ser esterilizada.

Aos dezenove anos, li um anúncio na parte final da revista New York que oferecia terapia sexual para pessoas que tivessem problemas com o sexo. Eu ainda acreditava que o problema de quem eu queria era subsidiário ao problema de quem eu não queria. Eu sabia que aquela parte de uma revista não era um bom lugar para achar tratamento, mas minha situação era embaraçosa demais para ser revelada a alguém que me conhecesse. Peguei minhas economias e fui a um escritório num prédio sem elevador do bairro de Hell’s Kitchen, onde me submeti a longas conversas sobre minhas ansiedades sexuais, incapaz de admitir para mim mesmo ou para o assim chamado terapeuta que, na verdade, eu simplesmente não me interessava por mulheres. Não mencionei a movimentada vida sexual que eu levava então com homens. Comecei o “aconselhamento” com pessoas que devia chamar de “doutor”, que prescreveram “exercícios” com minhas “parceiras substitutas” – mulheres que não eram exatamente prostitutas, mas que também não eram exatamente outra coisa. Em um protocolo, eu tinha de ficar nu e andar de quatro, fingindo ser um cão, enquanto a substituta fingia ser uma gata; a metáfora de representar intimidade entre espécies avessas é mais significativa do que me dei conta na época. Afeiçoei-me curiosamente a essas mulheres, uma das quais, uma loira atraente do Sul, acabou por me contar que era necrófila e pegara aquele emprego depois que começou a ter problemas no necrotério. Era preciso trocar constantemente de garota para que seu desembaraço não se limitasse a uma única parceira sexual. Lembro-me da primeira vez que uma porto-riquenha subiu em cima de mim e começou a se sacudir para cima e para baixo, gritando com êxtase: “Você está dentro de mim! Você está dentro de mim!”. Enquanto isso, eu me perguntava com tédio ansioso se havia enfim conseguido o prêmio e me tornado um heterossexual qualificado.

As curas raramente funcionam com rapidez e eficácia completa para alguma coisa que não seja infecção bacteriana, mas isso pode ser difícil de notar quando as realidades sociais e medicinais estão em fluxo rápido. Minha recuperação foi a percepção da doença. Aquele consultório da rua 45 aparece em meus sonhos: a necrófila que achou minha forma pálida e suada suficientemente parecida a um cadáver para satisfazer sua fantasia; a mulher latina motivada pela missão que me introduziu no seu corpo com tanto júbilo. Meu tratamento durou apenas duas horas por semana durante cerca de seis meses e me deu um desembaraço com o corpo das mulheres que foi vital para posteriores experiências heterossexuais que fico contente por ter tido. Amei de verdade algumas das mulheres com quem mais tarde tive relacionamentos, mas quando estava com elas, jamais conseguia esquecer que minha “cura” era uma manifestação destilada da aversão por mim mesmo, e jamais perdoei totalmente as circunstâncias que me dispuseram a fazer aquele esforço obsceno. A tensão de minha psique entre Dwight e aquelas mulheres-gato tornou o amor romântico quase impossível para mim no início da minha vida adulta.

Meu interesse pelas diferenças profundas entre pais e filhos surgiu de uma necessidade de investigar o lócus do meu pesar. Embora gostasse de culpar meus pais, passei a acreditar que grande parte de minha dor vinha do mundo mais amplo a meu redor, e uma parte dela vinha de mim. No calor de uma discussão, minha mãe me disse certa vez: “Um dia você pode ir a um terapeuta e contar-lhe como sua mãe terrível arruinou sua vida. Mais vai ser da sua vida arruinada que você estará falando. Então, faça uma vida para si mesmo em que possa se sentir feliz, e na qual você possa amar e ser amado, porque é isso que de fato importa”. Pode-se amar alguém, mas não o aceitar; pode-se aceitar alguém, mas não o amar. Eu sentia erroneamente as falhas na aceitação de meus pais como déficits do amor deles. Agora, penso que a experiência principal deles foi ter um filho que falava uma língua que nunca pensaram em estudar.

Como um pai ou mãe pode saber se deve apagar ou celebrar uma determinada característica? Em 1963, quando nasci, a atividade homossexual era crime; durante minha infância, era um sintoma de doença. Quando eu tinha dois anos, saiu na revista Time: “Mesmo em termos puramente não religiosos, a homossexualidade representa um mau uso da faculdade sexual. É um pequeno substituto patético de segunda categoria para a realidade, um voo lamentável para longe da vida. Como tal, merece justiça, compreensão, compaixão e, quando possível, tratamento. Mas não merece nenhum incentivo, nenhuma glamorização, nenhuma racionalização, nenhum falso status de martírio da minoria, nenhum sofisma sobre simples diferença de gosto – e, acima de tudo, nenhum fingimento de que é outra coisa senão uma doença perniciosa”.

Não obstante, quando eu era pequeno, tínhamos amigos próximos da família que eram gays – vizinhos e tios-avós substitutos para mim e meu irmão que passavam os feriados conosco porque suas famílias não os queriam. Eu ficava sempre confuso com o fato de Elmer ter ido para a Segunda Guerra Mundial quando estava na metade do curso de medicina, lutado na Frente Ocidental e, depois, aberto uma loja de presentes quando voltou para casa. Durante anos, ouvi dizer que as coisas terríveis que vira na guerra o haviam mudado e que não tinha estômago para a medicina depois de voltar. Foi só depois que Elmer morreu que Willy, seu parceiro de cinquenta anos, explicou-me que ninguém pensaria em ir a um médico gay em 1945. Os horrores da guerra haviam impulsionado Elmer para a integridade, e ele pagou seu preço ao passar sua vida adulta pintando bancos de bar divertidos e vendendo louças. De vários pontos de vista, Elmer e Willy viveram um grande romance, mas um fundo de tristeza pelo que poderia ter sido marcava suas vidas. A loja de presentes era um pedido de desculpas para a medicina; o Natal conosco era um pedido de desculpas para a família. Sinto-me humilde perante a escolha de Elmer; não sei se teria tido a coragem de fazer escolha semelhante, nem a disciplina para evitar que o arrependimento minasse o meu amor, se tivesse feito isso. Embora Elmer e Willy nunca tivessem se considerado ativistas, sua tristeza e a de outros como eles foi a precondição da minha felicidade e da de outras pessoas como eu. Quando entendi a história deles com mais generosidade, reconheci que os temores de meus pais em relação a mim não eram simplesmente produto de uma imaginação hiperativa.

Na minha vida adulta, ser gay é uma identidade; a narrativa trágica que meus pais temiam por mim já não é inevitável. A vida feliz que levo agora era inimaginável quando eu pedia balões cor-de-rosa e ekmek kadayiff – tampouco quando eu interpretava Algernon. No entanto, a visão tríplice da homossexualidade como crime, doença e pecado permanece potente. Às vezes, eu achava que era mais fácil pra mim perguntar às pessoas sobre seus filhos com deficiência, seus filhos concebidos em estupro, seus filhos que cometeram crimes do que teria sido olhar diretamente para a maneira como muitos pais ainda reagem ao fato de ter filhos como eu. Dez anos atrás, uma enquete na New Yorker perguntou a pais se eles preferiam ver seu filho gay, feliz com seu companheiro, realizado e com filhos, ou heterossexual, solteiro ou infeliz na união, e sem filhos. Um em cada três escolheu a segunda opção. Não se pode odiar uma identidade horizontal de forma mais explícita do que desejar infelicidade e semelhança para seus filhos, em vez de felicidade e diferença. Nos Estados Unidos, novas leis contra gays surgem com monótona periodicidade; em dezembro de 2011, o estado do Michigan promulgou a lei de Restrição ao Benefício de Companheiro Doméstico de Funcionário Público, que exclui os parceiros de funcionários gays da cobertura de seguro-saúde, apesar de permitir que municípios e condados proporcionem essa cobertura a todos os outros membros da família, inclusive tios, sobrinhos e primos. Enquanto isso, em grande parte do resto do mundo, a identidade que habito continua inimaginável. Em 2011, Uganda chegou perto de aprovar uma lei que faria com que alguns atos homossexuais fossem puníveis com a morte. Um artigo na revista New York sobre gays no Iraque contém esta informação: “Corpos de homens homossexuais, muitas vezes mutilados, começaram a aparecer nas ruas. Acredita-se que centenas de homens foram mortos. Os retos de homens gays foram colados e fechados, e eles foram forçados a tomar laxantes e água até que suas entranhas explodissem”.

Grande parte do debate acerca das leis sobre orientação sexual girou em torno da ideia de que quem escolhe a homossexualidade não deve ser protegido, mas se nasce com ela talvez deva. Os praticantes de religiões minoritárias são protegidos não porque nascem assim e não podem fazer nada contra isso, mas porque afirmamos seu direito de descobrir, declarar e exercer a fé com a qual se identificam. Em 1973, militantes conseguiram tirar a homossexualidade da lista oficial de doenças mentais, mas os direitos dos homossexuais continuam dependendo de legações de que a homossexualidade é involuntária e imutável. Esse modelo da sexualidade como algo parecido com um aleijão é deprimente, mas assim que alguém postula que a homossexualidade é escolhida e mutável legisladores e líderes religiosos tentam curá-la e privar gays de direitos em seu campo de ação. Hoje, homens e mulheres continuam a ser “tratados” de homossexualidade em acampamentos de reforma religiosa e em consultórios de psiquiatras inescrupulosos ou equivocados. O movimento de ex-gays no cristianismo evangélico enlouquece milhares de gays ao tentar convencê-los, em oposição à experiência deles, de que o desejo é totalmente voluntário. O fundador da organização anti-homossexual MassResistance sustenta que os gays devem se tornar alvos específicos de discriminação, devido à suposta natureza voluntária de sua perversão ostensiva.

Aqueles que pensam que uma explicação biológica da homossexualidade irá melhorar a posição sociopolítica dos gays também estão tristemente enganados, como a reação a recentes descobertas científicas deixa claro. O sexólogo Ray Blanchard descreveu um “efeito da ordem de nascimento fraternal” que sustenta que a chance de produzir filhos gays aumenta de forma constante em cada feto do sexo masculino que uma mãe carrega. Semanas depois de publicar esses dados, ele recebeu um telefonema de um homem que se decidira contra a contratação de uma mãe de aluguel que antes dera à luz meninos, dizendo a Blanchard que “não é o que eu quero […] especialmente se estou pagando por isso”. O medicamento para artrite dexametasona, embora não conste de sua bula, é utilizado para tratar mulheres com risco de produzir filhas com um problema que masculiniza parcialmente sua genitália. Maria New, pesquisadora do Mount Sinai Hospital, em Nova York, sugeriu que a dexametasona ministrada no início da gravidez também reduz as chances de que a bebê venha a se tornar lésbica; com efeito, segundo essa pesquisadora, o tratamento torna as meninas mais interessadas em ter filhos e cuidar da casa, menos agressivas e mais tímidas. Já foi dito que essa terapia pode conter o lesbianismo até na população geral. Em estudos com animais, a exposição pré-natal à dexametasona parece causar muitos problemas de saúde, mas se há medicação que possa realmente limitar o lesbianismo, os pesquisadores vão descobrir uma mais segura. Descobertas médicas como essas continuarão a ter graves implicações sociais. Se desenvolvermos marcadores pré-natais para a homossexualidade, muitos casais abortarão seus filhos gays; se descobrirmos uma droga preventiva viável, muitos pais estarão dispostos a experimentá-la.

Não insistirei que pais que não querem ter filhos gays devam tê-los, assim como as pessoas que não querem ter filhos devam tê-los. No entanto, não consigo pensar nas pesquisas de Blanchard e New sem me sentir como o último quagga. Não sou evangélico. Não preciso verticalizar minha identidade para meus filhos, mas odiaria que minha identidade horizontal desaparecesse. Eu odiaria isso por aqueles que compartilham minha identidade e por aqueles que se encontram fora dela. Odeio a perda de diversidade no mundo, ainda que às vezes fique um pouco desgastado por ser essa diversidade. Não desejo para ninguém em particular que seja gay, mas a ideia de ninguém ser gay já me faz sentir falta de mim mesmo.

Todas as pessoas são tanto objetos como perpetradoras de preconceito. Nossa compreensão do preconceito contra nós informa nossas reações aos outros. A universalização a partir das crueldades que conhecemos, no entanto, tem seus limites, e os pais de uma criança com uma identidade horizontal muitas vezes falham na empatia. Os problemas de minha mãe com o judaísmo não fizeram que ela lidasse muito melhor com o fato de seu ser gay; o fato de eu ser gay não teria feito de mim um bom pai para uma criança surda até que eu tivesse percebido as semelhanças entre a experiência de um surdo e um gay. Um casal de lésbicas que entrevistei que tinha um filho transgênero me disse aprovar o assassinato de George Tiller, o provedor de abortos, porque a Bíblia diz que o aborto é errado; no entanto, elas ainda estavam espantadas e frustradas diante da intolerância que tinham encontrado em relação à identidade delas e de seu filho. Estamos sobrecarregados com as dificuldades de nossa própria situação e fazer causa comum com outros grupos é uma perspectiva desgastante. Muitos homossexuais reagirão negativamente a comparações com deficientes, assim como muitos afro-americanos rejeitam o uso da linguagem dos direitos civis por militares gays. Mas comparar pessoas com deficiências com pessoas que são gays não implica nenhuma negatividade em relação à homossexualidade ou à deficiência. Todo mundo tem falhas e é estranho; a maioria das pessoas também é corajosa. O corolário razoável para a experiência homossexual é que todo mundo tem um defeito, que todo mundo tem uma identidade, e que muitas vezes são a mesma coisa.

É assustador para mim pensar que, sem a intervenção constante de minha mãe, eu jamais teria adquirido fluência em letras; agradeço todos os dias pela resolução suficiente de minha dislexia. Por outro lado, embora eu pudesse ter tido uma vida mais fácil se fosse heterossexual, agora estou comprometido com a ideia de que sem minhas lutas eu não seria eu mesmo, e que gosto de ser eu mesmo mais do que gosto da ideia de ser outra pessoa – alguém que não tenho a capacidade de imaginar, nem a noção de ser. Não obstante, me perguntei muitas vezes se poderia ter deixado de odiar minha orientação sexual sem todas as celebrações do Orgulho Gay, das quais este texto é uma manifestação. Eu costumava pensar que estaria maduro quando pudesse ser simplesmente gay, sem ênfase. Decidi-me contra esse ponto de vista em parte porque não me sinto neutro em relação a quase nada, mas mais porque percebo esses anos de autodesprezo como um vazio bocejante, e a celebração precisa preenchê-lo e fazê-lo transbordar. Mesmo que eu lide adequadamente com minha dívida privada de melancolia, há um mundo exterior de homofobia e preconceito a consertar. Espero que algum dia essa identidade possa transformar-se em um fato simples, livre tanto de partidarismos como de culpa, mas isso está longe. Um amigo que achava que o Orgulho Gay estava ficando um pouco exagerado sugeriu certa vez que organizássemos uma semana de Humildade Gay. É uma boa ideia, mas seu momento ainda não chegou. A neutralidade, que parece estar a meio caminho entre a vergonha e a alegria, é de fato o fim do jogo, a que se chega somente quando o ativismo se torna desnecessário.

É uma surpresa para mim que eu goste de mim mesmo; dentre todas as possibilidades detalhadas que pensei para meu futuro, essa nunca fez parte. Meu contentamento conquistado a duras penas reflete a verdade simples de que a paz interior depende com frequência da paz exterior. No evangelho gnóstico de são Tomás, Jesus diz: “Se manifestares o que está dentro de ti, o que está dentro de ti te salvará. Se não manifestares o que está dentro de ti, o que está dentro de ti te destruirá”. Quando me contraponho às posições antigay das modernas organizações religiosas, muitas vezes desejo que as palavras de são Tomás fossem canônicas, porque sua mensagem abrange muito de nós com identidades horizontais. Manter a homossexualidade trancada dentro de mim quase me destruiu, e revela-la quase me salvou.

Andrew Solomon nasceu em Nova York, em 1963. Formou-se em inglês e literatura na Universidade de Yale e obteve o mestrado pela Universidade de Cambridge, onde atualmente conclui o doutorado em psicologia. É consultor especial de saúde mental LGBT em Yale e membro do conselho consultivo do Columbia University Medical Center. Escritor, ativista e conferencista, é autor de O demônio do meio-dia, que venceu o National Book Award de 2001 e é considerado um dos cem livros mais importantes da última década pelo jornal The Times. (Este texto é um fragmento do livro de Andrew Solomon intitulado Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, lançado em 2013 no Brasil pela editora Companhia da Letras).

* “Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e por dificuldade na habilidade de decodificação e soletração. Essas dificuldades resultam tipicamente do déficit no componente fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas consideradas na faixa etária” (Fonte: Associação Brasileira de Dislexia).

** Identidade vertical são atributos e valores transmitidos dos pais para filho através das gerações, não somente através de cadeias de DNA, mas também de normas culturais compartilhadas. Por exemplo: a etnia, a linguagem, a religião, a nacionalidade. Identidade horizontal são características inatas ou adquiridas não compartilhada com os progenitores (pais). Ser gay é um exemplo de identidade horizontal.