O mito dos 10% do cérebro - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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O mito dos 10% do cérebro

O mito dos 10% do cérebro

Suzana Herculano-Houzel

Quanto do seu cérebro você usa? E da sua capacidade? E do seu potencial?

Quem já não ouviu essa frase: “Usamos apenas 10% do cérebro”? Em 1999, quando passei a trabalhar em divulgação científica, quis começar investigando o que o público conhecia e pensava sobre o cérebro. Numa pesquisa chamada “Você conhece seu cérebro?”, perguntei a 2 mil cariocas, entre outras coisas, se eles concordavam com a célebre frase. A metade concordou. Fiz a mesma pergunta a 35 neurocientistas, e a frase foi prontamente recusada. A razão? Essa história de usar 10% do cérebro nada mais é do que um mito.

Vamos deixar claro logo do começo: não há qualquer razão científica para supor que usamos 10% do nosso cérebro. Nem 10% dos nosso neurônios. Nem 10% da nossa capacidade. Todas as evidências sugerem o contrário: usamos nosso cérebro inteiro. Os 10% ficam por conta da imaginação de quem conseguiu convencer quase metade da população do Rio de Janeiro a aceitar esse mito.

É verdade que, à primeira vista, a ideia de usar somente 10% do cérebro parece muito convidativa. Usando apenas 10% do cérebro, teríamos 90% de reserva e, se conseguíssemos aprender a usar esse “potencial”, poderíamos ficar dez vezes mais inteligentes, memorizar dez vezes mais fatos, fazer contas dez vezes mais rápido… Só que não é assim.

O pior é que as consequências são graves. Quem acredita que 90% de seu cérebro são dispensáveis não tem que evitar choques na cabeça, usando capacete na motocicleta ou cinto de segurança no carro. Quem não sabe que usa seu cérebro inteiro a todo momento ainda não faz ideia da maravilha que tem dentro da cabeça. E, de quebra, fica suscetível ao assédio de livros e cursos que se autodenominam “científicos”, e pretendem ensinar “como usar os outros 90%”. Espalhar o mito de que usamos 10% do cérebro ou de sua capacidade é um dos grandes desfavores que a mídia já fez ao homem e à ciência.

É difícil definir como surgiu esse mito, mas há uma possibilidade interessante. No começo do século 20, quando a ciência tentava identificar a localização das funções mentais do cérebro, um influente psicólogo norte-americano, Karl Lashley (1890-1958), tinha uma opinião diferente. Lashley acreditava que o importante era haver uma massa suficiente de neurônios distribuída pelo cérebro, e não sua posição específica dentro dele. Um de seus principais argumentos era que a maior parte do córtex cerebral de ratos de laboratório – quase 90% – podia ser removida, e mesmo assim os animais eram capazes de encontrar a saída de um labirinto.

O que Lashley esqueceu de considerar foi que os animais operados poderiam, por exemplo, usar os sentidos restantes para compensar um sentido lesado e ainda conseguir deixar o labirinto. Mesmo assim, os números eram impressionantes, e para alguém – não foi Lashley – concluir que bastavam 10% do cérebro para a memória funcionar era só um pulinho. E daí basta inverter a lógica para “deduzir” que apenas 10% do cérebro são usados.

Essa é apenas uma origem possível para o mito dos 10%. Em princípio, há várias maneiras de usar só 10% do cérebro: usando 10% da massa cerebral, 10% dos neurônios, ou 10% do potencial… Mas não importa: em qualquer um dos três casos, toda a ciência aponta para o contrário. Se são 10% da massa cerebral, 90% do que temos dentro da cabeça deveriam então ser dispensáveis. E, no entanto, lesões do cérebro humano, mesmo pequenas, podem ter consequências graves para o intelecto e o comportamento. Se são 10% dos neurônios, os outros 90% deveriam ser silenciosos, ou então redundantes, servindo só como “reservas”. Mas é possível “escutar” as células nervosas em atividade, e em sua grande maioria elas estão ativas e respondem por algum aspecto do mundo ou do comportamento. E se são 10% da capacidade de desenvolvimento intelectual… será que alguém sabe o que seriam os 100%?

Uma dificuldade para aceitar que usamos 100% do cérebro pode ser a pergunta inevitável de quem estava convencido do contrário: se tudo é usado, como então é possível desenvolver nossas habilidades? A resposta está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a eficiência das conexões – as sinapses – já existentes. Quando a eficiência aumenta, a conexão entre dois neurônios fica “fortalecida”; quando diminui, a conexão fica “enfraquecida”; Além do mais, nenhuma conexão é fixa; uma conexão enfraquecida demais pode ser eliminada, e uma nova pode ser feita em outro lugar, com outro neurônio. Fortalecer essas novas conexões, estabilizando-as, é uma maneira de criar novas associações. Os neurocientistas hoje estão convencidos de que essa é a base do aprendizado. Como sempre se pode tirar uma conexão daqui e criar outra ali, será sempre possível fazer mais uma combinação, mais uma associação entre neurônios, e aprender mais alguma coisa.

Talvez nem sempre fique tudo na lembrança; talvez seja mesmo necessário esquecer algumas coisas para poder lembrar de outras. Não importa. Aprender, a mais nobre função do cérebro, não funciona a 10%, nem a 100%, nem a 1% da sua capacidade. Não há limite. Simplesmente funciona.

Livro: O cérebro nosso de cada dia
Autora: Suzana Herculano-Houzel
Ano: 2012 [2 ed.]
Editora: Vieira & Lent
224 páginas.