O Sentido do Trabalho - Flávio Hastenreiter - Terapia Cognitivo-Comportamental
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O Sentido do Trabalho

O Sentido do Trabalho

Flávio Hastenreiter

O trabalho humano pode ser discutido de forma trans-histórica, ou seja, como uma categoria eterna, insuperável em todos os modos de produção que já existiram ou de forma histórica, analisando-se as formas específicas de o homem trabalhar no modo de produção primitivo, antigo, medieval e capitalista. Quando se toma o sentido genérico do trabalho, ele é considerado uma categoria insuperável e trans-histórica, inseparável do homem e sua finalidade é a auto-construção humana, uma vez que o homem é o único ser que cria a si próprio, que se auto-constrói, sendo o trabalho uma categoria central nesse processo de auto-construção.

O trabalho, com suas diversas representações valorativas, possui também um valor sobre o sentido de vida das pessoas. Entender o sentido do trabalho na contemporaneidade é um desafio para os envolvidos com o tema. O mundo do trabalho na atualidade sofre mudanças em decorrência do arranjo do mercado mundial, influenciado por questões globalizantes.

O arranjo da economia mundial globalizada acarreta mudanças no contexto do trabalho na contemporaneidade. Essas mudanças decorrentes da competitividade, produtividade, inovação tecnológica, reestruturação produtiva, entre outras, têm resultado no surgimento de diferentes concepções sobre o trabalho na atualidade. Há os que apontam que o trabalho no capitalismo perdeu seu papel social; em contrapartida, há os que afirmam a importância do trabalho, mesmo com essas influências atuais, necessitando neste caso de redimensioná-lo na sua concepção (Tolfo e Piccinini, 2007).

De acordo com as pesquisas de Morin (2001) mais de 80% das pessoas afirmam que não abririam mão do trabalho mesmo se tivessem muito dinheiro e não precisassem mais trabalhar. As razões apontadas para se continuar trabalhando são: “para se relacionar com outras pessoas, para ter o sentimento de vinculação, para algo que fazer, para evitar o tédio e para se ter um objetivo na vida” (Morin, 2001, p. 9). Pode-se observar que a grande maioria atribui ao trabalho um sentido que implica ressonância em importantes esferas da vida; na esfera das relações e dos vínculos, na esfera das ocupações e do sentido de vida. Portanto, a organização do trabalho tem um reflexo direto sobre as pessoas que o executam nas empresas, determinando a emergência de aspectos agradáveis e desagradáveis.

Morin (2001) apóia-se em estudos como os do grupo MOW (1987) (Meaning of Work International Research Team) que afirma que o trabalho assume uma condição sobre a identidade das pessoas; nos estudos de Hackman e Oldham (1976) que apontam características que dão sentido ao trabalho, como variedade das tarefas, identidade do trabalho e significado do trabalho; os de Emery (1964; 1976) e Trist (1978) que apontaram seis características do trabalho que influenciam no modo de quem o executa: variedade e desafio, aprendizagem contínua, autonomia, reconhecimento e apoio, contribuição social e futuro desejável. Questionando esses estudos, Morin (2001) amplia essas características e aponta outros aspectos relacionados ao sentido do trabalho na contemporaneidade como: eficiência e resultados, satisfação, moralidade, experiência de relações, segurança e autonomia e ocupação, entre outras.

Morin e Aubé (2009) descrevem três componentes ligados ao sentido do trabalho: significação, orientação e coerência. A significação diz da representação e o valor do trabalho para o indivíduo. A orientação diz da função, dos desejos e intenções, enfim dos resultados buscados pelo trabalho. A coerência diz do equilíbrio que o indivíduo encontra no trabalho. As variações desses componentes ocorrem de acordo com o sentido atribuído ao trabalho por cada indivíduo.

Existem diversas vertentes de estudos sobre os sentidos do trabalho. Uma corrente que possui significativa influência sobre o tema é a de Dejours (1987) que se apóia na psicanálise para fundamentar os estudos da psicopatologia e psicodinâmica do trabalho. Inicialmente, a abordagem de Dejours foi centrada nos fatores do trabalho responsáveis pelo adoecimento (psicopatologia do trabalho) e quando foi publicada a segunda edição de sua “Loucura do trabalho” o autor passou a levar em conta também os aspectos subjetivos que se somam aos fatores de organização do trabalho (psicodinâmica do trabalho). Subentendo nos estudos de Dejours está o sentido do trabalho, como fator capaz de produzir prazer ou sofrimento. Apesar das graves e consideráveis lacunas na proposta de Dejours apontadas por Lima (2002), segundo a autora a sua importância se coloca por ser a partir da sua obra que se deu o início das discussões sobre o tema no Brasil.

Outra influência a respeito do entendimento sobre o trabalho é a de Enriquez (2001). Para este autor o trabalho tem sido associado às organizações onde ele se desenvolve.

[…] todos os métodos de formação, de evolução pessoal e grupal, de intervenção psicossociológica ou institucional nas organizações sociais reconhecem, por um lado, que o indivíduo é um ator preso em uma história coletiva na qual tem que assumir um papel social, um membro de um conjunto que tem suas restrições, suas regras de jogo e seu espaço de liberdade e, por outro lado, que a mudança traz consigo questionamentos e transformações nas relações de poder ou ao menos de autoridade (Enriquez, 2001, p.177).

Entretanto, segundo o autor, o paradigma individualista não quer uma mudança individualista, não quer uma mudança social nem uma mudança individual em profundidade. Em vez disso, faz-se uma sacralização das organizações. O sujeito é preparado para considerar a organização como uma religião sem a qual não pode viver e se falhar é ele mesmo que assume a culpa do seu fracasso. Desta forma, o sentido do trabalho se torna irracional em sua essência, à medida que através de técnicas diferentes se busca transformar o trabalho em um verdadeiro culto.

A organização do trabalho que resulta das transformações econômicas e sociais contemporâneas é fator importante para a construção da subjetividade das pessoas, para a identidade das organizações e afeta todo o tecido social. O sentido do trabalho, de acordo com Jardim (2010), também sofre influências negativas pelo arranjo social atual; de um lado, trabalhar se tornou fonte de estresse, sintoma da modernidade; de outro, o trabalho constitui forma de acesso ao consumismo. Esses arranjos colocam o homem mais distante daquilo que o realiza e o leva para a realidade da competição estabelecida pelo mundo globalizado.

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Tolfo, S. R.; Piccinini, V. Sentidos e significados do trabalho: explorando conceitos, variáveis e estudos empíricos brasileiros. Psicologia & Sociedade, Florianópolis, 19, edição especial 1, 2007, p. 38-46.

Morin, Estelle M. Os sentidos do trabalho. RAE – Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 41, n. 3, jul./set., 2001, p. 8-19.

Morin, Estelle M.; Aubé, C. A motivação: dar um sentido ao trabalho. In: Morin, Estelle M.; Aubé, C. Psicologia e gestão. São Paulo: Atlas, 2009. p. 95-125.

Dejours, C. A loucura no trabalho: estudos em psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez.

Enriquez, E. Interioridade e organizações. In: Davel, E.; Vergara, S. C. (Org.).Gestão com pessoas e subjetividade. São Paulo: Atlas, 2001. p. 173-187.

Lima, M. E. Esboço de uma crítica à especulação no campo da saúde metal e trabalho. In: Jacques, M. das G.; Codo, W. (Org.). Saúde mental e trabalho: leituras. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. p. 50-81.

Jardim, F. S. O sentido do trabalho na contemporaneidade: um estudo de caso. 2010. 112f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.